Foto: sandrin
Uma tempestade perfeita financeira e climática vem transformando o mapa fundiário do interior do estado de São Paulo.
Propriedades agrícolas de médio e grande porte nas regiões de Itapetininga, Ribeirão Preto, Sorocaba e Alta Paulista estão migrando das mãos de famílias tradicionais de produtores para as carteiras de ativos tomados por instituições financeiras.
A inadimplência no setor agrícola atingiu patamares históricos e os bancos estão acionando a alienação fiduciária, um instrumento legal que transfere a propriedade do imóvel ao credor sem a necessidade de uma longa disputa judicial.
O endividamento do produtor rural paulista formou-se em ciclos sucessivos ao longo da última década:
Expansionismo com Juros Baixos (2020 / 2022)
Estimulados pelos preços recordes das commodities (soja, milho e milho safrinha) e pela Selic em patamares baixos, produtores investiram fortemente em renovação de maquinário, fertilizantes e expansão de terras por meio de crédito imobiliário rural e Cédulas de Produto Rural.
Explosão dos Custos de Insumos (2023)
A eclosão do conflito na Ucrânia encareceu drasticamente os insumos agrícolas, especialmente fertilizantes e defensivos, reduzindo a margem operacional das fazendas.
Quebra de Safra e Mudanças Climáticas (2024 / 2025)
A severa seca e as oscilações térmicas extremas no estado de São Paulo prejudicaram a produtividade da cana-de-açúcar, grãos e citros. Ao mesmo tempo, o ciclo global de queda das commodities impediu que a receita cobrisse as despesas operacionais e o serviço da dívida.
Encurralamento Financeiro (2025 / 2026)
A Selic elevada tornou inviável o refinanciamento das dívidas de curto prazo.
O endividamento problemático rural nacional superou R$ 171 bilhões, fazendo explodir o número de propriedades rurais leiloadas e de pedidos de Recuperação Judicial no agro.
Os Números da Inadimplência Rural
Dados de instituições financeiras, centros de pesquisa e órgãos oficiais desenham a dimensão do passivo no campo:
| Indicador | Dado Registrado | Fonte |
| Dívidas Problemáticas no Agro | R$ 171,2 bilhões em dívidas rurais com atraso, renegociação ou reestruturação. | Banco Central |
| Taxa de Inadimplência Rural | Atingiu 8,2% a 19,6% na carteira total de crédito problemático. | Serasa Experian Bacen |
| Carteira Agro do Banco do Brasil | Ultrapassou R$ 400 bilhões; BB atua em renegociações via Medidas Provisórias (R$ 35,5 bi renegociados). | Banco do Brasil |
| Leilões e Retomadas Extrajudiciais | Mais de 14.200 fazendas leiloadas no país em 2025 (alta de 30%), com forte volume em SP. | Leiloeiras Rurais / Análise de Mercado |
| Pedidos de Recuperação Judicial | Crescimento de 56% no setor agrícola, afetando médios e grandes grupos do interior de SP. | Serasa |
| Estrutura Agrícola de SP | Mudança no uso do solo e valor da terra rural acompanhados no estado. | Fundação SEADE CEPEA-FGV |
Como os Bancos Tomam as Fazendas
Diferente do passado, quando a penhorabilidade de bens rurais levava anos na justiça, grande parte dos contratos recentes de financiamento rural utiliza a Alienação Fiduciária de Imóvel Rural.
Após 60 a 90 dias de atraso nas parcelas de custeio ou investimento, a instituição financeira notifica o produtor via Cartório de Registro de Imóveis.
Caso a dívida não seja quitada no prazo legal, a propriedade é consolidada em nome do banco credor sem a necessidade de processo judicial.
O banco coloca o imóvel em leilão público extrajudicial em até 60 dias para recuperar o capital emprestado.
Entidades como a FAESP (Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo) e a FIESP têm alertado para o impacto socioeconômico da perda de garantias e defendem novos mecanismos de prorrogação e securitização das dívidas rurais para conter a perda de patrimônio por produtores paulistas.
E fica a pergunta: Quem irá retomar a produção após a mudança de proprietários nos leilões ?

