3 de novembro de 2026
Incluir a natureza no planejamento urbano melhora a saúde e reduz o calor
Incluir a natureza no planejamento urbano melhora a saúde e reduz o calor

Vegetação e zonas permeáveis ganham importância diante da crise climática e da supressão das áreas verdes nas bordas dos municípios

A expansão de grandes centros se torna mais visível nos perímetros de determinadas localidades conforme seu desenvolvimento. Intervenções como loteamentos, vias e empreendimentos, com o tempo, avançam sobre regiões que delimitam o tecido metropolitano e o meio rural — como remanescentes florestais, várzeas, nascentes e terrenos agropecuários.
No estado de São Paulo, esse avanço pressiona territórios essenciais ao equilíbrio ambiental, uma vez que a substituição da vegetação e do solo permeável por asfalto e concreto reduz a infiltração da água, intensifica ilhas de calor, elimina habitats e amplia a pressão sobre rios, várzeas e mananciais.
Os números dimensionam o desafio. Segundo o MapBiomas, entre 1985 e 2024, 1,84 milhão de hectares que se tornaram urbanos no Brasil eram, antes, de uso agropecuário, e cerca de 680 mil hectares eram áreas naturais. Já o Inventário Florestal estadual aponta cobertura nativa de 22,9% nos municípios paulistas.
Uma forma de compreender essa perda é pelos serviços ecossistêmicos — benefícios que a natureza oferece à sociedade. A engenheira geóloga Amarilis Lucia Casteli Figueiredo Gallardo, professora e coordenadora científica do Núcleo de Apoio à Pesquisa em Física Médica da Universidade de São Paulo (NAP-USP Cidades), ensina que espaços com presença de reservas naturais nas regiões metropolitanas e periurbanas ajudam a regular cheias, sequestrar carbono, melhorar a qualidade do ar e promover bem-estar. “As áreas verdes dentro e fora da zona urbana são importantes provedoras de serviços ecossistêmicos”, afirma a principal pesquisadora da Acomodação Sustentável do Crescimento Urbano das Cidades Paulistas, do Centro de Ciência para o Desenvolvimento (CCD) da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).
Conciliar moradia e infraestrutura com a preservação dessas funções exige uma abordagem transdisciplinar. Engenharia, Agronomia, Geografia, Geologia e outras carreiras fornecem projetos, diagnósticos e estudos que orientam decisões sobre ocupação e uso do solo.
A diretora técnica do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Estado de São Paulo (Crea-SP) e engenheira agrônoma Gisele Herbst Vazquez resume que o planejamento territorial sustentável exige interdisciplinaridade: não se resolve a complexidade urbana em uma única gaveta disciplinar. Segundo ela, as Geociências ajudam a mapear vulnerabilidades e bacias hidrográficas; a Engenharia projeta drenagem, contenções e infraestrutura; e a Agronomia contribui com o domínio biológico do ecossistema.
Eventos extremos

A intensificação das ocorrências climáticas tornou essa discussão ainda mais urgente. Chuvas concentradas, inundações e ondas de calor expõem as consequências de um desenvolvimento que impermeabilizou o solo, suprimiu vegetação e canalizou cursos d’água.
Nesse contexto, o verde passa a integrar a rede de proteção das cidades. Amarilis destaca que, além de minimizar os reflexos dessas mudanças, é preciso adaptar o território aos efeitos já em curso. “O planejamento e a gestão pública devem trabalhar com a perspectiva de mitigação dos impactos de eventos extremos, mas principalmente com a adaptação a essas ocorrências nos municípios”, descreve.
A arquiteta Myriam Tschiptschin, diretora de SmartCities do Centro de Tecnologia de Edificações (CTE), explica que a vegetação bem distribuída reduz a temperatura do ar e das superfícies, favorece a infiltração da água e atenua o escoamento superficial, contribuindo para diminuir ilhas de calor e enchentes.
Preservação ambiental e desenvolvimento urbano, portanto, passam a integrar uma mesma agenda, enquanto a Engenharia incorpora critérios de resiliência ao desenho e à ocupação do território.
Soluções Baseadas na Natureza

Tratar o verde como alicerce significa incorporá-lo à programação dos municípios desde o início. Essa é a lógica das Soluções Baseadas na Natureza (SbN), que complementam a infraestrutura convencional com redes capazes de recuperar ou reproduzir processos naturais.
O conselheiro do Crea-SP e coordenador adjunto do Comitê de Mudanças Climáticas da autarquia paulista, engenheiro civil Hassan Mohamad Barakat – que está à frente do Centro de Gerenciamento de Emergências Climáticas (CGE), da Prefeitura de São Paulo – sintetiza essa mudança. “Projetar cidades com esse olhar significa promover uma mudança de lógica: sair do controle da natureza e avançar para a convivência e a cooperação”, comenta o especialista, que também preside a Associação Brasileira de Engenheiros Civis do Estado de São Paulo (ABENC-SP).
Isso não é o mesmo que substituir indiscriminadamente a infraestrutura convencional. Amarilis ressalta que as SbNs devem ser avaliadas como recursos da Engenharia. Jardins de chuva, pavimentos drenantes, telhados verdes e parques lineares podem contribuir para enfrentar desafios urbanos, mas sua eficiência depende das características de cada território.
“As SbNs nem sempre vão representar a resposta adequada para uma questão, por exemplo, de inundação em uma área muito impermeabilizada. Não é descartar seu uso, mas entender como podem ser consorciadas a uma solução cinza”, detalha.
Em São Paulo, jardins de chuva ajudam a captar e infiltrar a água antes de sobrecarregar a drenagem. Para que ações como essa ganhem escala, porém, é preciso avaliá-las e monitorá-las. Amarilis cita o Caderno de Tipologias da Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Habitação do Estado como uma iniciativa que reúne diferentes possibilidades de SbN e apoia sua aplicação pelos municípios.
Da regulação à ação estratégica

A consolidação da implantação dessas estratégias demanda que planejamento técnico, regulação urbana e instrumentos econômicos caminhem juntos. Estudos geológicos, projetos de drenagem e avaliações ambientais ajudam a reduzir riscos e orientar uma ocupação mais segura, com responsabilidade técnica.
Além da fiscalização, mecanismos como IPTU Verde, Quota Ambiental e Pagamentos por Serviços Ambientais (PSA) podem estimular a manutenção de zonas permeáveis e a proteção de mananciais. Segundo Amarilis, esses instrumentos recompensam, direta ou indiretamente, ações que melhoram a qualidade do ecossistema.

Ao lado do adensamento planejado de áreas já consolidadas, essas iniciativas apontam para uma mudança de perspectiva: preservar e ampliar a vegetação não significa impedir o desenvolvimento, mas criar condições para que o município continue habitável à medida que cresce.
É nesse sentido que ganha força o recado de Gisele Vazquez. “No planejamento das cidades do futuro, o verde deve sempre ser tratado como infraestrutura básica, e não como um complemento estético pós-obra”, conclui.
Sobre o Crea-SP – Criada há 92 anos, a autarquia federal é responsável pela fiscalização, controle, orientação e aprimoramento do exercício e das atividades dos profissionais das Engenharias, Agronomia e Geociências. O Crea-SP está presente nos 645 municípios do Estado, conta com cerca de 380 mil profissionais registrados e mais de 110 mil empresas registradas.

 

Foto: Rodolfo Gaion

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