Foto: Leiliane Dutra
Pressionada por custos operacionais elevados, pela forte volatilidade do gás natural e pelo crédito agrícola apertado, a indústria doméstica opera com margens estranguladas, enquanto o agronegócio busca alternativas para evitar desabastecimento nas próximas safras.
O gigante do agronegócio global enfrenta um gargalo silencioso dentro de suas próprias fronteiras.
A indústria brasileira de fertilizantes vive um cenário de forte pressão estrutural e operacional.
Operando próximo da capacidade máxima viável com os custos atuais — e, em alguns segmentos, sob risco real de paralisação de plantas industrializadas —, o setor tenta equilibrar custos de produção crescentes com a dependência histórica de insumos importados.
Dados da Associação Nacional para Difusão de Adubos (ANDA) indicam que o Brasil movimentou um volume recorde de 49,1 milhões de toneladas de fertilizantes. Em termos monetários, o mercado brasileiro do insumo movimenta mais de R$ 320 bilhões (aproximadamente US$ 27,2 bilhões).
No entanto, por trás das cifras expressivas esconde-se uma fragilidade estrutural: cerca de 85% dos fertilizantes consumidos pelas lavouras brasileiras vêm do exterior, expondo a cadeia produtiva a oscilações cambiais, choques geopolíticos no Leste Europeu e Oriente Médio e disparadas nos preços do frete internacional.
Gargalos operacionais e o fantasma do shutdown
Análises publicadas por portais especializados, como o Canal Rural, AgroemDia e projeções do Rabobank, apontam que as fábricas locais enfrentam desafios rigorosos para manter as esteiras rodando:
- Alto custo do gás natural: Matéria-prima fundamental para os nitrogenados (como a ureia e a amônia), o gás natural comercializado no Brasil chega a custar mais que o dobro do valor praticado nos Estados Unidos e em países do Oriente Médio, inviabilizando a competitividade das plantas nacionais.
- Margens comprimidas dos produtores: O endividamento do setor produtivo e os custos de financiamento mais elevados levaram a uma retração na intenção de compra do agricultor. Estimativas de consultorias do setor indicam uma queda de cerca de 2% a 8% nas entregas de fertilizantes em comparação ao recorde do período anterior.
- Risco de paralisação temporária: Sem conseguir repassar a alta dos custos de matéria-prima para o produtor rural — que já opera com margens estreitas nas commodities como soja e milho —, indústrias de mistura e síntese reportam operar perto do “break-even” (ponto de equilíbrio), ameaçando interromper turnos de produção caso as cotações internacionais sofram novos choques.
Raio-X do mercado brasileiro de fertilizantes
| Indicador do Mercado | Valor / Volume Registrado | Fonte / Contexto |
| Consumo Total (Safra Recente) | 49,1 milhões de toneladas | ANDA (Volume entregue ao mercado) |
| Grau de Dependência Externa | ~85% de importação | Ministério da Agricultura / Conab |
| Faturamento do Mercado | > R$ 320 bilhões (~US$ 27,2 bi) | Mordor Intelligence / Dados de mercado |
| Projeção de Demanda | Retração entre 2% e 8% | Rabobank / Agroconsult |
| Aumento pontual na Ureia | Altas de até +76% em picos de crise | Cotações de importação em portos nacionais |
Resposta governamental e o Plano Nacional de Fertilizantes
Para tentar estancar a vulnerabilidade, o governo federal reforçou medidas dentro do Plano Nacional de Fertilizantes (PNF), buscando elevar a participação da produção doméstica dos atuais 15% para ao menos 30% ou 35% nas próximas décadas.
Entre as ações articuladas no Congresso e no Executivo, destacam-se:
- Incentivos e Créditos para a Indústria: Aprovação de linhas de crédito direcionadas para a expansão e modernização de unidades industriais no país.
- Uso de Insumos Nacionais: Adoção progressiva de diretrizes que garantam cota mínima e prioridade para fertilizantes produzidos em solo nacional a partir dos próximos anos.
- Projetos Estratégicos: Avanços no licenciamento de jazidas de potássio (como o projeto Autazes, no Amazonas) e fosfato na região Centro-Oeste, com potencial para substituir fatia relevante das importações desses minerais no longo prazo.
Sem uma solução definitiva para o custo do gás natural e para a segurança jurídica e tributária dos investimentos industriais, especialistas do agronegócio alertam: o Brasil continuará refém do cenário internacional, correndo o risco de ver fábricas locais desligarem as máquinas justamente quando o campo mais precisa de insumos.

