5 de setembro de 2026

Dependência externa da produção de fertilizantes ameaça economia do agronegócio no interior de São Paulo

Foto: Leiliane Dutra

Pressionada por custos operacionais elevados, pela forte volatilidade do gás natural e pelo crédito agrícola apertado, a indústria doméstica opera com margens estranguladas, enquanto o agronegócio busca alternativas para evitar desabastecimento nas próximas safras.

O gigante do agronegócio global enfrenta um gargalo silencioso dentro de suas próprias fronteiras.

A indústria brasileira de fertilizantes vive um cenário de forte pressão estrutural e operacional.

Operando próximo da capacidade máxima viável com os custos atuais — e, em alguns segmentos, sob risco real de paralisação de plantas industrializadas —, o setor tenta equilibrar custos de produção crescentes com a dependência histórica de insumos importados.

Dados da Associação Nacional para Difusão de Adubos (ANDA) indicam que o Brasil movimentou um volume recorde de 49,1 milhões de toneladas de fertilizantes. Em termos monetários, o mercado brasileiro do insumo movimenta mais de R$ 320 bilhões (aproximadamente US$ 27,2 bilhões).

No entanto, por trás das cifras expressivas esconde-se uma fragilidade estrutural: cerca de 85% dos fertilizantes consumidos pelas lavouras brasileiras vêm do exterior, expondo a cadeia produtiva a oscilações cambiais, choques geopolíticos no Leste Europeu e Oriente Médio e disparadas nos preços do frete internacional.

Gargalos operacionais e o fantasma do shutdown

Análises publicadas por portais especializados, como o Canal Rural, AgroemDia e projeções do Rabobank, apontam que as fábricas locais enfrentam desafios rigorosos para manter as esteiras rodando:

  • Alto custo do gás natural: Matéria-prima fundamental para os nitrogenados (como a ureia e a amônia), o gás natural comercializado no Brasil chega a custar mais que o dobro do valor praticado nos Estados Unidos e em países do Oriente Médio, inviabilizando a competitividade das plantas nacionais.
  • Margens comprimidas dos produtores: O endividamento do setor produtivo e os custos de financiamento mais elevados levaram a uma retração na intenção de compra do agricultor. Estimativas de consultorias do setor indicam uma queda de cerca de 2% a 8% nas entregas de fertilizantes em comparação ao recorde do período anterior.
  • Risco de paralisação temporária: Sem conseguir repassar a alta dos custos de matéria-prima para o produtor rural — que já opera com margens estreitas nas commodities como soja e milho —, indústrias de mistura e síntese reportam operar perto do “break-even” (ponto de equilíbrio), ameaçando interromper turnos de produção caso as cotações internacionais sofram novos choques.

Raio-X do mercado brasileiro de fertilizantes

Indicador do Mercado Valor / Volume Registrado Fonte / Contexto
Consumo Total (Safra Recente) 49,1 milhões de toneladas ANDA (Volume entregue ao mercado)
Grau de Dependência Externa ~85% de importação Ministério da Agricultura / Conab
Faturamento do Mercado > R$ 320 bilhões (~US$ 27,2 bi) Mordor Intelligence / Dados de mercado
Projeção de Demanda Retração entre 2% e 8% Rabobank / Agroconsult
Aumento pontual na Ureia Altas de até +76% em picos de crise Cotações de importação em portos nacionais

Resposta governamental e o Plano Nacional de Fertilizantes

Para tentar estancar a vulnerabilidade, o governo federal reforçou medidas dentro do Plano Nacional de Fertilizantes (PNF), buscando elevar a participação da produção doméstica dos atuais 15% para ao menos 30% ou 35% nas próximas décadas.

Entre as ações articuladas no Congresso e no Executivo, destacam-se:

  1. Incentivos e Créditos para a Indústria: Aprovação de linhas de crédito direcionadas para a expansão e modernização de unidades industriais no país.
  2. Uso de Insumos Nacionais: Adoção progressiva de diretrizes que garantam cota mínima e prioridade para fertilizantes produzidos em solo nacional a partir dos próximos anos.
  3. Projetos Estratégicos: Avanços no licenciamento de jazidas de potássio (como o projeto Autazes, no Amazonas) e fosfato na região Centro-Oeste, com potencial para substituir fatia relevante das importações desses minerais no longo prazo.

Sem uma solução definitiva para o custo do gás natural e para a segurança jurídica e tributária dos investimentos industriais, especialistas do agronegócio alertam: o Brasil continuará refém do cenário internacional, correndo o risco de ver fábricas locais desligarem as máquinas justamente quando o campo mais precisa de insumos.

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