Em meio ao turbilhão de músicas comerciais e covers, surge em Itapetininga a Banda Meia Boca, um grupo de rock autoral que tem se destacado pela irreverência e letras bem-humoradas. Nascida durante a pandemia, a banda traz uma proposta ousada: fazer música original, com um olhar crítico e, ao mesmo tempo, divertido sobre o cotidiano.
A banda é composta por Ivan Fortunato, professor do Instituto Federal São Paulo (IFSP), o advogado Israel Leitão e o músico Nathan Chagas.
O Surgimento “Meia Boca”
A banda, que ironicamente carrega o nome “Meia Boca”, nasceu de forma despretensiosa, quase no final da pandemia, por iniciativa de Ivan Fortunato.
“No meio da pandemia, descobri que os acordes que eu sabia fazer na adolescência podiam transformar aquele momento ruim em música”, conta Ivan. Envolvido com o Casulo, um ponto de cultura na cidade, ele começou a musicar o cotidiano.
A ideia de formar uma banda de rock veio após criar um jingle para as redes sociais do Casulo. “Fui fazendo música, comecei a fazer música, muita música. E eu achei: ‘Pô, que legal, acho que dá para fazer rock com essas músicas’”, explica. Com a ajuda de um aluno e de outro estudante do IFSP que retomava a bateria, os primeiros ensaios aconteceram no instituto vazio, com equipamentos emprestados dos “Doutores do Rock”, uma banda de professores do IFSP.
O nome surgiu naturalmente. “Terminava o ensaio. ‘E aí, como foi? ‘ ‘Ah, ficou meia boca’. Foi ficando meia boca. Até que um dia falou: ‘Vamos batizar esse negócio de banda Meia Boca, porque é o que tá acontecendo'”, lembra Ivan.
A Proposta Autoral e o Humor Cáustico
A Banda Meia Boca se define por sua proposta autoral desde o “dia zero”. “A pretensão da banda Meia Boca é fazer música. A gente tirou totalmente a ideia de fazer cover, de tocar música já conhecida,” afirma Ivan.
As letras são uma atração à parte. Ivan Fortunato, a principal força criativa, revela a influência de artistas como Falcão e Mamonas Assassinas. “Uma grande influência minha é o Falcão, Marcondes Falcão, né? E os seus álbuns, as suas músicas cheias de duplo sentido, de trocadilhos,” comenta.
Um exemplo disso é a música de abertura do álbum, cujo mascote é um “pintinho amarelo” (uma pelúcia que acompanha Ivan no palco). A canção é uma brincadeira feita com sobrenomes e nomes, como no caso de uma personagem chamada Isadora Pinto Grosso, evidenciando o tom irreverente e provocativo do grupo.
As performances de Ivan no palco, que incluem um chapéu em homenagem à sua formação como “bruxo” e um charuto para representar Freud em uma canção sobre psicanálise, são parte integrante da identidade excêntrica da banda. “A banda foi realmente indo por essa irreverência,” resume Ivan.
O Desafio da Originalidade em Itapetininga
Para o baixista Israel Leitão, a proposta da banda, que exige dedicação, estudo e trabalho, nem sempre é imediatamente digerida pelo público local. “A gente sente às vezes um certo estranhamento das pessoas. Não é muito digerido logo de começo assim a proposta, porque é um negócio meio excêntrico mesmo,” comenta.
A banda se distancia do circuito de bares que privilegia covers, buscando um público mais aberto em um “circuito cultural”. “Aquele público que está acostumado a ir ao bar, ver tocar o Guns and Roses, o Led Zeppelin, o Pink Floyd, a coisa que a gente já conhece, não vai ser o nosso público,” explica Israel, destacando que a banda tem sido bem recebida em festivais e convenções fora de Itapetininga, onde a cena musical é mais rica em vertentes.
Nathan Chagas, o “músico de verdade” do grupo, ressalta a importância da autenticidade e da arte em um momento em que a música se tornou excessivamente comercial. “Um dos principais motivos de eu ter aceitado esse convite […] foi porque eu senti que a música em si estava se perdendo muito,” afirma Natan.
O baterista, filho do maestro Mário Chagas e da musicista Isabel Chagas, com um conhecimento musical apurado, foi fundamental para “azeitar” as composições, mas concorda que o objetivo é “resgatar a arte na música,” como complementa Israel. “O músico tem que criar a própria música. Você pegar e copiar a música dos outros e tentar ser uma cópia tem seu valor, é importante… mas você não dá para se chamar de músico se você só copia a arte dos outros.”
Próximos Passos e a Busca pelo Palco
A Banda Meia Boca, que lançou seu primeiro disco em maio, está repensando os próximos passos. O feedback do público indicou que o som da banda é “muito mais legal ao vivo do que gravado.” Por isso, o grupo considera uma regravação ao vivo e já tem material para um segundo álbum.
A divulgação nas redes sociais, especialmente no Instagram, é crucial. “O Instagram realmente ele é um meio poderoso de divulgação e também de encontro,” diz Ivan, que é o responsável pela busca incessante por lugares para tocar e pela inscrição em festivais.
“O que vem pela frente é provavelmente um segundo álbum, alguns festivais que a gente está participando,” resume Ivan.
O apelo final dos músicos é um convite ao público para abraçar a cena autoral. “Vamos fortalecer a música autoral, tem bastante banda aqui em Itapetininga,” diz Israel. “É legal cover, mas vamos fortalecer o autoral, né? Vamos divulgar arte, fazer o seu próprio trabalho e fortalecer uma cena de Itapetininga musical como de verdade, porque cover acho que já deu já.”
SERVIÇO:
- Banda Meia Boca
- Álbum: Disponível no Spotify
- Instagram: @bandameiaboca
- Contato para shows: Via direct no Instagram


