Fernando Carvalho Oliveira*
Os fertilizantes orgânicos derivados do lodo de esgoto sanitário, sustentáveis, seguros e que proporcionam muitos benefícios ao solo e às plantas, são uma opção importante para os produtores rurais no presente cenário de aumento de preços dos fertilizantes minerais, dos quais o Brasil é dependente, pois importa cerca de 85% do que consome. A forte majoração em 2026, resultante dos conflitos no Oriente Médio e da guerra entre Rússia e Ucrânia, é agravada pelo encarecimento do insumo gás natural e tem impactos acentuados no campo.
Além do encarecimento dos fertilizantes minerais, os produtores brasileiros enfrentam crescentes dificuldades no âmbito da economia e da realidade nacional. Estão espremidos por uma Selic de 14% ao ano, endividamento, crédito escasso e margens apertadíssimas. Esse cenário torna cada vez mais estreita a janela de decisão para a compra dos insumos necessários à próxima safra. Com menos crédito disponível, preços de produção pressionados e fertilizantes mais caros, o produtor precisa antecipar suas decisões para evitar não apenas custos ainda maiores, mas também o risco de encontrar menor disponibilidade de determinados insumos justamente no momento de sua utilização.
Por isso, é fundamental encontrar soluções para atenuar os ônus da fertilização das lavouras, um dos que mais pesam no custo total da produção, e reduzir a dependência de insumos importados. A busca de alternativas também é fundamental para a economia e a população brasileira, pois o agro é decisivo para o crescimento do PIB, segurança alimentar, exportações e geração de empregos. Para compreender a dimensão desse problema no agro, basta observar o papel estratégico de dois segmentos expressivos do setor e da economia nacional: a cana-de-açúcar e o café. No primeiro caso, segundo o balanço final da safra divulgado pela União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (UNICA), o Brasil produziu 40,17 milhões de toneladas de açúcar e 34,96 bilhões de litros de etanol na safra 2024/2025. Deste total, 26,77 bilhões de litros foram processados a partir da cana. Ademais, somos os maiores exportadores de açúcar do mundo. Na safra 2024/25, foram 23,1 milhões de toneladas, que geraram divisas de US$10,9 bilhões. O País também exportou 1,67 bilhão de litros de etanol.
No que diz respeito ao café, o Brasil é o maior produtor e exportador mundial, respondendo por cerca de 38% da oferta global do grão. É interessante notar que, segundo levantamento inédito do Sebrae, 54% dos produtores nacionais são pequenos negócios, concentrados em propriedades com menos de 20 hectares.
No cenário atual de encarecimento do preço dos fertilizantes minerais, uma boa notícia para os cafeicultores e canavieiros, assim como para todos os produtores brasileiros, é que a ciência vem demonstrando de modo consistente que o lodo gerado no tratamento de esgoto sanitário ou de efluentes industriais ou agroindustriais podem ser transformados em fertilizantes orgânicos compostos, sustentáveis, altamente nutritivos e plenamente seguros para uso agrícola. O que antes era considerado rejeito passa a ser um insumo de valor agregado.
Tecnologias como a compostagem torna esse reaproveitamento possível por meio de rigorosos processos de estabilização. Na compostagem termofílica, por exemplo, temperaturas entre 55°C e 70°C eliminam patógenos e sementes de plantas invasoras, reduzindo o volume dos resíduos e produzindo um composto rico em húmus, carbono orgânico, nutrientes e vida microbiológica.
Além de ampliar a autonomia do produtor rural, os fertilizantes orgânicos compostos derivados do lodo de esgoto sanitário são a alternativa de melhor custo-benefício financeiro e agronômico para blindar a rentabilidade da safra. Se utilizados com critérios e constância, podem reduzir em até 50% a fertilização mineral das culturas.
Esses fertilizantes orgânicos compostos também aumentam a capacidade de retenção de água no solo, favorecem a reciclagem de nutrientes, reduzem o descarte de resíduos em aterros e cursos d’água e contribuem para o aumento da produtividade de diversas culturas. Trata-se de uma solução que reúne ganhos econômicos, ambientais e sociais.
É importante fazer uma distinção técnica: biossólidos é o termo que se refere ao lodo de esgoto sanitário tratado e estabilizado, cujo uso direto na agricultura é tratado como destinação de resíduos, sob critérios ambientais da Resolução CONAMA n. 498/2020. Já o fertilizante orgânico composto, que pode ter lodo de esgoto como uma de suas matérias primas, passa por processamento adicional, como a compostagem termofílica, e se torna um produto agrícola registrado pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), conforme a Instrução Normativa SDA n. 61/2020, de uso seguro e irrestrito na lavoura. Um fator importante refere-se às evidências científicas que respaldam a segurança desses fertilizantes, ou mais precisamente, do material de origem que, depois de compostado, dá origem a eles. A Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA) estabeleceu um marco regulatório específico para o uso agrícola de biossólidos, fundamentado em rigorosas avaliações de riscos. A Comissão Europeia, por meio de seu Centro Comum de Pesquisa (JRC), também vem apontando que esses materiais podem ser seguros quando submetidos a rigoroso controle de contaminantes e metais pesados, tema que segue em constante atualização diante de novos parâmetros regulatórios. Da mesma forma, a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO) e a Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhecem, em diretrizes conjuntas, o potencial do reaproveitamento agrícola de resíduos e efluentes devidamente tratados.
Em nosso país, a Embrapa e diversos institutos de pesquisa e universidades brasileiras demonstraram a viabilidade agronômica e segurança sanitária do uso de biossólidos dentro dos parâmetros legais e sob acompanhamento técnico. A Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (CETESB), por sua vez, estabelece critérios técnicos rigorosos para essa aplicação em solo agrícola, por meio da Norma P4.230, o que reforça o nível de exigência e controle em torno dessa prática no estado.
Em meio a todas as vantagens econômicas e agronômicas dos fertilizantes orgânicos compostos, cabe um alerta importante: o produtor rural precisa estar atento, pois nem toda matéria orgânica é igual. Assim, não é recomendável, diante da pressão dos juros, encarecimento dos insumos e da restrição do crédito, buscar “atalhos” no mercado informal. O falso barato pode sair muito caro em termos reais.
O uso de estercos crus ou camas de aviário não estabilizados, por exemplo, causa o que a agronomia chama de Efeito Priming Positivo (aceleração indevida, pelos microrganismos, da decomposição da matéria orgânica nativa do solo, com perda de carbono já estocado na terra). Esses materiais crus também costumam sofrer perdas de nitrogênio pela volatilização de amônia, dois problemas distintos, mas que juntos pesam contra o bolso do produtor. A verdadeira revolução está na compostagem termofílica, que entrega um produto maturado, com liberação lenta e gradual de nutrientes, rico em substâncias húmicas e fúlvicas e capaz de multiplicar a CTC (Capacidade de Troca Catiônica) do solo cultivado.
Não se trata apenas de sustentabilidade ambiental, mas de rentabilidade comprovada no campo. Dados recentes mostram que essa tecnologia já é uma realidade lucrativa. No Cerrado, a adoção do fertilizante orgânico composto associado ao manejo mineral gerou ganhos de 10,8% na cultura da soja e 6,8% no milho (Unesp – Ilha Solteira). Na fruticultura, estudos da Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios (APTA) no Vale do Ribeira constataram um aumento de 10% na produção de bananas ao longo de três ciclos. Em cultivos exigentes, como o tomate, pesquisas da ESALQ/USP confirmaram o alcance da produtividade máxima com melhoria na qualidade e redução da acidez dos frutos.
Os fertilizantes orgânicos compostos provam que é perfeitamente possível produzir mais, gastar menos, reduzir em até 50% a fertilização mineral de algumas culturas e proteger o patrimônio do produtor: o seu solo. Essa é a alternativa tecnológica, robusta e definitiva para construir uma agropecuária altamente rentável e blindada contra as incertezas globais.
*Fernando Carvalho Oliveira é doutor em Agronomia, com ênfase em Solos e Nutrição de Plantas, pela Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” (ESALQ/USP). Especialista no tratamento de resíduos orgânicos e economia circular, é membro do Conselho Deliberativo da ABISOLO – Associação Brasileira das Indústrias de Tecnologia para Produção Vegetal e atua como responsável técnico pelos fertilizantes orgânicos compostos da Tera Nutrição Vegetal.
Fonte: Ricardo Viveiros & Associados — Oficina de Comunicação
Foto: MELQUIZEDEQUE ALMEIDA

