Foto: Aliaksei Semirski
Classificado como uma das piores espécies exóticas invasoras do planeta pela União Internacional para a Conservação da Natureza, o javali (Sus scrofa) e seu cruzamento com o porco doméstico, (“javaporco”) transformaram-se em um pesadelo real para os produtores rurais, gerando prejuízos para a economia do interior do estado de São Paulo.
Sem predadores naturais no bioma brasileiro e dotados de alta taxa reprodutiva, esses animais devastam lavouras, ameaçam o ecossistema paulista e mantêm em alerta máximo a sanidade do rebanho nacional.
Nas regiões de Ribeirão Preto, Sorocaba, Itapeva e Vale do Paraíba, o avanço desses bandos vorazes afeta severamente a rentabilidade do agronegócio. Segundo alertas da Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo (FAESP), os danos se distribuem por diferentes culturas.
No Milho e Cerealicultura as perdas nas lavouras de milho podem atingir até 45% de uma safra. Os animais revolvem a terra para comer os adubos e as sementes recém-plantadas, derrubam pendoamentos e desestruturam o milharal pronto para colheita.
Na Cana-de-Açúcar e Hortifrúti , em áreas canavieiras, os bandos abrem clareiras extensas ao pisotear a cultura e se alimentar do broto jovem, gerando perdas diretas na tonelagem por hectare.
Além das perdas de safra, produtores enfrentam custos crescentes para consertar cercas, reforçar a segurança e adotar medidas de contenção.
Risco sanitário: a grande ameaça à pecuária
O maior temor das entidades representativas e órgãos de defesa agropecuária, como a Coordenadoria de Defesa Agropecuária (CDA-SP) e o Ministério da Agricultura, é o impacto sanitário.
Os javalis e javaporcos atuam como reservatórios silvestres de doenças graves, incluindo a Peste Suína Clássica (PSC), a Febre Aftosa e a Aujeszky.
A simples circulação desses vetores próximos a granjas comerciais coloca em risco as certificações internacionais de exportação de carne suína e bovina obtidas pelo Brasil.
Degradação ambiental: solo revirado e matança de espécies nativas
Estudos da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq/USP) e da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) mostram que os impactos ecológicos são profundos:
Destruição de Nascentes: Ao chafurdar em Áreas de Preservação Permanente (APPs) e matas ciliares em busca de água e alimento, o javali causa o assoreamento de rios e a contaminação de fontes de água.
Pressão sobre a Fauna Nativa: O suiforme invasor compete diretamente por alimento com espécies nativas, como o cateto e o queixada, além de predar ovos e filhotes de répteis e aves que se reproduzem no solo.
Legislação e estratégias de controle
Para conter o avanço do animal, o Governo do Estado de São Paulo regulamentou decretos que declaram o javali-europeu e seus híbridos como espécies nocivas, integrando ações do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), Secretaria de Agricultura e Polícia Militar Ambiental.
O manejo populacional por meio do abate controlado é autorizado sob regras rígidas de cadastramento junto aos órgãos ambientais. Fóruns promovidos pela FAESP e Senar reforçam a necessidade de integrar tecnologia, monitoramento e simplificação burocrática para que os produtores consigam proteger suas propriedades dentro do rigor da lei.

