No agro o posicionamento é fundamental. Agricultura é muito mais do que plantar e colher. É planejamento, tecnologia, gestão, persistência, conhecimento e, acima de tudo, coragem para recomeçar quando algo não sai como planejado’, produtora rural Natalya Ferraz Rodrigues
‘Nenhum dia é igual ao outro, nenhuma safra é igual a outra, estamos
sempre aprendendo e o agro nos força a ser melhores a cada dia’, pesquisadora e doutora em agronomia Adriana Micheli
‘O agro é combustível. É um setor que me movimenta, me desafia e me faz aprender constantemente. Trazemos uma perspectiva diferente para o agronegócio. E isso fortalece o setor’, engenheira agrônoma especialista em regulamentação de insumos Manuela Hiromi de Holanda Dodo
As mulheres estão cada vez mais consolidando a posição de protagonistas no agronegócio brasileiro e têm muitos motivos para comemorar no Dia Internacional das Mulheres Rurais, celebrado em 15 de outubro. Apenas na profissão de engenharia agrônoma, o número de profissionais femininas no mercado cresceu 56% em 10 anos, duplicou em 20 anos e triplicou desde 2000, segundo levantamento do Conselho Federal de Engenharia e Agronomia. Desde 2018, elas passaram a ser maioria entre os estudantes que concluíram cursos relacionados ao setor, aponta o Censo de Educação Superior do Ministério da Educação divulgado este ano.
Em 2010, as alunas dos cursos de agricultura, silvicultura, pesca e veterinária representavam 40% dos formandos e os homens somavam 60%. Em 2018, elas alcançaram a maioria pela primeira vez e representaram 50,3% dos que concluíram os cursos relacionados ao agro e em 2024 chegaram a 54%, conforme o Censo. O Conselho de Engenharia informou que havia 340 engenheiras agrônomas atuando em 2000, 1 mil em 2006, 1,3 mil em 2016 e 2 mil este ano. De acordo com o órgão, na virada dos anos 2000 as mulheres representavam de 8% a 10% dos registros ativos na Engenharia Agronômica no Brasil. Atualmente, esse número é de 20% a 22% do total de profissionais com registro ativo no país.
A engenheira agrônoma, especialista em regulamentação de insumos agrícolas da Ascenza Brasil, Manuela Hiromi de Holanda Dodo, atribui esse avanço a mudanças no agronegócio. “O agro mudou muito. Hoje é um setor cada vez mais técnico, tecnológico e aberto a diferentes perfis profissionais. As mulheres foram conquistando seu espaço por competência e conhecimento. Ainda temos desafios, mas hoje vemos mulheres atuando em praticamente todas as áreas do agro, inclusive em posições de liderança e decisão”, afirma.
O estudo “Mulheres nas Cadeias de Valor do Agronegócio Brasileiro”, da Fundação IDH, divulgado este ano, aponta que 19% das propriedades rurais brasileiras são geridas por mulheres, com números que variam de acordo com o setor. Na pecuária, a gestão já é um terço feminina, com mulheres liderando 33% das propriedades. As gestoras lideram ainda 22% das propriedades da cadeia do cacau, 18% dos citros, 17% da soja e 13% do café.
“A transformação do agronegócio passa pela transformação de quem decide. A mulher assume cada vez mais papel de protagonismo, participa das decisões, lidera negócios, impulsiona inovação e ajuda a definir os caminhos de um setor que está se tornando cada vez mais diverso, estratégico e com olhos para o futuro. Elas têm novas formas de pensar e capacidade de transformar desafios em resultados”, afirma a engenheira agrônoma e gerente de marketing da Ascenza Brasil, Patrícia Cesarino.
A pesquisadora, bióloga e doutora em agronomia Adriana Micheli, pesquisadora da G12 Agro Pesquisa e Consultoria Agronômica, acredita que os novos espaços conquistados no agronegócio acompanham a evolução da mulher na sociedade. “Batalhamos por nosso espaço e mostramos que também podemos atuar no agronegócio. Muito espaço foi aberto pelas mulheres das famílias de agricultores, que sempre estiveram presentes no campo”, afirma.
Processo de evolução
O Relatório Anual Socioeconômico da Mulher (Raseam) 2026, do Ministério das Mulheres, baseado em dados de 2024, mostra que havia 7,8 milhões de pessoas ocupadas em agricultura, pecuária, produção florestal, pesca e aquicultura, das quais 18,7%, 1,5 milhão, eram mulheres. Segundo o documento, das 1,1 milhão de pessoas atendidas pelo Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf) em 2024, 38,5% eram mulheres. No Nordeste, a participação feminina chegou a 50,4% dos beneficiários, enquanto no Sul foi de 18,4%.
A produtora rural Natalya Ferraz Rodrigues, uma das principais referências e lideranças do agronegócio na Região Nordeste, especialmente no cultivo de hortifrúti, explica que vê esse processo como uma evolução muito importante para o setor. “Mas acredito que o principal não é simplesmente aumentar a presença feminina: é garantir que essa presença seja acompanhada de reconhecimento, autonomia e oportunidades reais. A mulher não está chegando ao agro apenas para ocupar espaço. Ela está mostrando competência, produzindo, empreendendo, inovando e tomando decisões”, defende
Natalya comenta que não existe uma característica única para definir a atuação feminina no agronegócio. “Somos diferentes e temos diferentes formas de trabalhar. Mas vejo na mulher uma capacidade muito grande de observar detalhes, cuidar dos processos, buscar conhecimento e conciliar diferentes responsabilidades. Muitas mulheres também têm uma forte capacidade de organização e de construção de relacionamentos”, alega.
Toda essa movimentação feminina trouxe junto uma mobilização para o surgimento de redes organizadas de apoio, como comissões femininas em sindicatos rurais, associações de classe e eventos de grande porte dedicados ao setor, o que ampliou a visibilidade institucional e o networking entre as produtoras rurais. As mulheres ganharam maior visibilidade como produtoras, empresárias, técnicas e profissionais especializadas, inclusive em cadeias tradicionalmente masculinas. Em 2026, a criação da Câmara Temática de Mulheres Rurais no Ministério da Agricultura consolidou essa agenda.
Advogada e lavradora
Filha de pecuarista, Natalya conta que sua história com o agro começou antes de perceber que a horticultura faria parte da sua vida profissional. Ele se formou em direito, chegou a advogar, mas rendeu-se ao campo, que define como “grande paixão”, há cerca de três anos. É produtora rural, mas também atua como articuladora e incentivadora do desenvolvimento da agricultura no Maranhão.
“Venho construindo minha experiência principalmente dentro da horticultura, aprendendo diariamente com o campo, com os produtores, com os técnicos e com as empresas que trazem novas tecnologias para o setor”, afirma. Começou plantando tomate e melancia há três anos. “O tomate acabou se tornando um grande divisor de águas na minha trajetória. Passei a enxergar não apenas a produção, mas todo o potencial que existe na horticultura maranhense. Sou advogada por profissão, mas agricultora por vocação e paixão”, diz.
A produtora rural defende que o agro representa origem, trabalho, oportunidade e futuro. “Representa também uma conexão muito profunda com a minha família e com aquilo que acredito”, aponta. Natalya diz que um dos momentos marcantes de sua jornada no setor foi perceber, na prática, a responsabilidade e os desafios de colocar alimento na mesa das pessoas.
“Outro momento muito importante foi idealizar e realizar o Dia D da Cultura do Tomate, em Amarante do Maranhão. O projeto nasceu da vontade de mostrar que o Maranhão tem potencial para produzir tomate, gerar renda, criar oportunidades e desenvolver uma horticultura cada vez mais profissional. O campo me ensinou que agricultura é muito mais do que plantar e colher. É planejamento, tecnologia, gestão, persistência, conhecimento e, acima de tudo, coragem para recomeçar quando algo não sai como planejado”, comenta Natalya.
O aumento da participação feminina no agro é um processo contínuo, acredita Natalya. “Na minha experiência, aprendi que no agro o posicionamento é fundamental. Quando você conhece o seu trabalho, acredita no que faz e se posiciona com segurança, o respeito vem naturalmente”, diz. Ela conta que gosta de acompanhar todo o processo de cultivo, preparar a terra, escolher a variedade, acompanhar o desenvolvimento da planta, observar os resultados das tecnologias utilizadas e chegar à colheita.
“Também me fascina a inovação. O agro está constantemente evoluindo, seja por meio de novas sementes, manejo, fertirrigação, equipamentos, tecnologias de aplicação ou ferramentas de gestão”, aponta a agricultora. “Eu espero que, no futuro, falar sobre mulher no agro seja cada vez mais natural. Quero ver uma nova geração de meninas crescendo sabendo que o campo também é lugar delas, que podem produzir, empreender, liderar e transformar suas comunidades. Quando uma mulher cresce no agro, ela não precisa crescer sozinha. Ela pode levar muitas outras com ela”, defende.
Magistério, não
Adriana nasceu em Castro, no Paraná, cidade com forte vocação para o agronegócio, e conta que sempre teve interesse na área. Viu o irmão se formar técnico agrícola, mas a mãe sugeriu que cursasse magistério. Acabou escolhendo biologia e fez mestrado em entomologia, orientada por um pesquisador da Embrapa Soja de Londrina. Foi convidada para ajudar a montar um laboratório na área de defesa vegetal na Fundação ABC.
“Foi a realização de um sonho, iniciei minha vida profissional auxiliando diretamente na pesquisa em campo. Fiquei na Fundação ABC por 13 anos e considero que foi minha base como pesquisadora na agricultura”, conta, lembrando que trabalha principalmente com a cultura de batata na G12 Agro. “É uma cultura com poucos pesquisadores no Brasil e estamos realizando um trabalho cada vez mais consolidado”, diz.
A pesquisadora define o agro como uma importante conquista pessoal. “Representa tudo que eu construí na minha vida”, afirma. Segundo ela, a mulher tem uma visão mais holística dos processos, são mais organizadas e detalhistas, o que contribui para fortalecer sua posição no segmento. Adriana destaca o dinamismo e a união da agricultura brasileira.
“Nenhum dia é igual ao outro, nenhuma safra é igual a outra, estamos sempre aprendendo e o agro nos força a ser melhores a cada dia. Como ouvi um CEO dizer uma vez, somos apaixonados pelo problema, somos motivados a sempre buscar novas soluções, isso é fascinante. Além disso, a união entre os agricultores é algo que me fascina, nos ajudamos, nos apoiamos e estamos sempre em busca de sermos melhores”, conta.
A expectativa da pesquisadora para o futuro é que a mulher ocupe mais espaço no agro. “Sempre quis trabalhar com pesquisa, dar suporte para o agronegócio e ajudar a buscar novas e melhores soluções para o produtor. Espero continuar nesse ramo até ficar bem velhinha”, afirma. Mas revela receio sobre o desenvolvimento do agronegócio no país. “Sabemos que o agro move o mundo, mas temos visto grandes desafios para o desenvolvimento do setor e isso só atrasa nosso crescimento, em todos os sentidos”, diz.
Combustível e conhecimento
Manuela construiu sua carreira de engenheira agrônoma sobre questões técnicas e regulatórias, acompanhando processos, requisitos legais e o caminho necessário para que um produto possa chegar ao agricultor dentro das exigências estabelecidas. “O agro sempre esteve muito presente na minha vida. Grande parte da minha família é formada por agrônomos, inclusive meu pai, então desde criança cresci convivendo com esse universo”, conta.
A especialista comenta que trabalha para transformar requisitos técnicos e legais em produtos que possam chegar ao agricultor e contribuir para sua produção. Ela diz que, mesmo trabalhando muitas vezes fora da lavoura, seu trabalho tem conexão direta com produção e a produtividade. “Isso é muito gratificante. O agro, para mim, é combustível. É um setor que me movimenta, me desafia e me faz aprender constantemente”, afirma.
Assim como suas colegas, Manuela destaca características fortes femininas, como organização, atenção aos detalhes, resiliência e capacidade de ouvir e conectar diferentes pontos de vista.”Trazemos uma perspectiva diferente para o agronegócio. E isso fortalece o setor”, aponta. Ela comenta que a união entre ciência, tecnologia e lavoura tornam seu trabalho ainda mais fascinante. “Todo esse caminho envolve pesquisa, legislação e responsabilidade. No final de tudo existe um objetivo muito concreto, ajudar a produzir de forma segura e eficiente”, diz.
Para o futuro, Manuela acredita que mais mulheres vão ocupar posições de liderança no setor. “Quero continuar crescendo, aprendendo e assumindo novos desafios. Hoje, além do conhecimento técnico, tenho muito interesse em continuar desenvolvendo minha liderança e contribuindo de forma cada vez mais estratégica para o agro. Acredito que teremos cada vez mais mulheres em todas as áreas do agro, diversidade que torna o setor mais forte, inovador e preparado para os desafios que vêm pela frente”, afirma.
Sobre a Ascenza
Multinacional referência nas soluções pós-patente, a Ascenza atua na proteção de culturas desde 1965 com o objetivo de fornecer as melhores alternativas aos clientes, através de uma estreita relação com distribuidores, agricultores e técnicos, com a missão de ajudar a alimentar a população mundial crescente. A empresa está sempre desenvolvendo competências notáveis e inovando para apresentar as melhores soluções aos constantes desafios do mercado, com produtos de qualidade, personalizados para as diferentes lavouras. O nome Ascenza deriva da palavra latina ascendere, que significa ascender, crescer, subir, alinhado com nosso propósito de Cultivar o Futuro. Proximidade, simplicidade, agilidade e sustentabilidade são compromissos da empresa, que tem como pilares cuidar das plantas, das pessoas e do planeta.
Foto: ONU Mulheres/Lianne Milton

