Os dois anos da privatização da Sabesp foi o tema da entrevista do Programa Contra Ponto, do Portal das Cidades.
Para falar do assunto, o Programa Contra Ponto entrevistou José Aurélio Boranga, ex-presidente da Associação Brasileira de Engenharia Sanitária e Ambiental (Boranga também foi superintendente de duas regionais da Sabesp, Botucatu e Itapetininga) e o deputado estadual Maurici, que faz parte da Frente Parlamentar contra a privatização da Sabesp.
Mudança de modelo: de serviço público à lógica de acumulação
Para o deputado Maurici, a privatização desvirtuou o objetivo fundamental da companhia, priorizando o retorno financeiro em detrimento das necessidades da população.
“Eu não tenho dúvida de que a Sabesp virou uma empresa focada no lucro pra iniciativa privada. Isso você vê em todos os aspectos”, afirmou o parlamentar.
Segundo Maurici, a nova política comercial endureceu a cobrança sobre os usuários mais vulneráveis. “Eles estão cortando a água de muito mais gente agora do que cortavam antes. Não estão permitindo parcelamento na conta de água [direto com a empresa], estão fazendo a pessoa parcelar no cartão de crédito”, destacou, ressaltando o risco de sobreendividamento dos consumidores.
Além das mudanças no atendimento ao cliente, o parlamentar criticou as discrepâncias salariais da nova estrutura executiva:
“O salário dos dirigentes da Sabesp pública era de R$ 50 mil a R$ 60 mil; na Sabesp privatizada, os diretores ganham R$ 600 mil, R$ 700 mil. Ou seja, é pura lógica de acumulação. A ideia de prestação de serviço público acabou.”
Demissão de técnicos e terceirização do conhecimento
Um dos pontos mais críticos abordados pelos entrevistados foi a demissão de quadros experientes em prol da contratação de empresas terceirizadas. Boranga classificou a substituição como uma “economia burra” que compromete a qualidade das operações.
“Quando você manda embora um monte de técnico de alta performance, muito gabaritado, e contrata terceirizado na esquina, você está fazendo com que o serviço público seja relegado ao segundo plano”, pontuou o especialista em saneamento.
O deputado Maurici reforçou a preocupação, correlacionando a falta de preparo das equipes terceirizadas a incidentes recentes pelo estado. “Uma operação que em muitos aspectos é delicada, quem tá na casa há 20, 30 anos sabe fazer, tem uma cultura de fazer. Já quem é contratado terceirizado tem um treinamento muito rápido. Tivemos problemas no Jaguaré, Mairiporã, Itaquera… A toda hora é um problema, é a completa irresponsabilidade.”
Impactos ambientais e descaso com os pequenos municípios
A atuação da nova concessionária no interior do estado também foi alvo de denúncias. Maurici citou o caso do município de Araçoiaba da Serra, afetado pelo descarte inadequado de efluentes no Rio Pirapora.
“A Sabesp despeja esgoto in natura no Rio Pirapora. Ela já paga hoje uma multa diária de R$ 10 mil por fazer isso, e o Ministério Público tá pedindo para a multa passar para R$ 100 mil.
Por quê? Porque é mais barato para essa nova Sabesp jogar o esgoto in natura do que passar a tratar esse esgoto antes de despejar no rio”, denunciou.
Ao projetar o futuro do saneamento no estado, Boranga alertou para o risco de abandono das cidades menores, onde a operação não gera altas margens de lucro.
“Uma empresa privada vai ser concessionária dos grandes municípios — São Paulo, Osasco, São José dos Campos — que dão lucro. E os municípios pequenos, que são a grande maioria do nosso estado, vão ganhar de presente o serviço de água para eles. Isso vai ser um caos para a saúde pública”, alertou Boranga, prevendo que muitos contratos acabem sendo devolvidos ao poder público no futuro.
Críticas amplias ao plano de concessões do Estado
Ao final do encontro, os entrevistados contextualizaram a situação da Sabesp dentro de uma política mais ampla de privatizações do Governo do Estado de São Paulo, citando projetos na área de transportes (CPTM e Trem Intercidades – TIC), infraestrutura viária e educação.
Para Boranga, o modelo adotado privilegia investidores e parcelas de maior poder aquisitivo em detrimento das demandas essenciais da maioria. “Para a Sabesp, eu tenho uma perspectiva muito sombria […] A minha visão é de que será caótica”, concluiu o ex-presidente da ABES.

