Historicamente dependente das importações do Sul do país e de vizinhos do Mercosul, o estado de São Paulo consolidou nos últimos anos um movimento estratégico no agronegócio: a expansão da cultura de trigo tropicalizada e de inverno.
Impulsionada por tecnologias de manejo, melhoramento genético e clima favorável em regiões de altitude, a produção paulista de trigo deixou de ser uma alternativa secundária para se tornar peça-chave na rotação de culturas.
No coração dessa transformação estão os municípios de Itapeva e Itapetininga, situados no Sudoeste paulista. Juntas de Avaré, as regiões concentram mais de 90% de todo o cereal colhido no estado, fortalecendo a economia da região.
Produção de Trigo em São Paulo (Últimos 10 Anos)
O gráfico a seguir apresenta a evolução da produção anual de trigo no estado de São Paulo ao longo da última década, com base nos levantamentos consolidados do IBGE (PAM/LSPA) e do IEA-APTA.
A Evolução da Cultura: Tecnologias e Qualidade de Ponta
A consolidação do trigo no interior de São Paulo é resultado de décadas de pesquisa integrada entre instituições públicas e privadas, com destaque para o trabalho da Embrapa Trigo e do Instituto Agronômico de Campinas (IAC). A introdução de cultivares adaptadas ao clima do Sudeste permitiu ganhos expressivos de produtividade e resistência a fungos de moinho, como a brusone e a giberela.
Além da produtividade física, a região sudoeste destaca-se pela força industrial do grão. Segundo dados do Sindicato da Indústria do Trigo no Estado de São Paulo (Sindustrigo) e da Câmara Setorial do Trigo, o trigo paulista atingiu índices de força de glúten e rendimento de farinha superiores aos padrões tradicionais do hemisfério Sul.
O Protagonismo de Itapeva e Itapetininga
Itapeva: Considerada a “capital paulista do trigo”, a cidade é a maior produtora do estado. A combinação de altitudes superiores a 600 metros, noites frias e produtores altamente tecnificados faz do município o líder isolado em volume de colheita
Itapetininga: Com papel fundamental na diversificação agrícola regional, Itapetininga combina o cultivo do trigo em rotação com a soja e o milho. A cidade destaca-se no uso de irrigação por pivô central e manejo de precisão, figurando consistentemente no topo do ranking estadual do IBGE.
Desafios Atuais do Setor no Interior Paulista
Apesar dos avanços, a cadeia produtiva no interior do estado enfrenta gargalos estruturais e climáticos relevantes:
Volatilidade Climática: Eventos de calor atípico durante o enchendo dos grãos ou chuvas volumosas na época da colheita representam riscos diretos à qualidade do produto final.
Competitividade e Custos de Insumos: Flutuações nos preços internacionais do trigo e a variação nos custos de fertilizantes e defensivos exigem margens apertadas e alta eficiência do produtor.
Logística e Capacidade de Armazenamento: O crescimento da produção esbarra em entraves de armazenagem segregada para separar os diferentes tipos de trigo (pão, melhorador ou brando) requeridos pelos moinhos.
Perspectivas de Futuro
As projeções do Instituto de Economia Agrícola (IEA-APTA) e da Fundação Getúlio Vargas (FGV Agro) indicam um cenário promissor. Com o maior mercado consumidor de derivados do país instalado no próprio estado, a logística do trigo paulista possui vantagem competitiva natural frente ao grão importado da Argentina ou vindo do Sul do Brasil.
Iniciativas como os programas de sustentabilidade e a certificação de “Trigo Baixo Carbono”, liderados pela Embrapa em parceria com a cadeia privada, tendem a valorizar ainda mais a produção do interior de São Paulo no cenário nacional e internacional.
Foto: karlitos sader

