Foto: Sergei Starostin
Projetos no interior de São Paulo marcam uma mudança estrutural na infraestrutura digital da América Latina; cliente global deve injetar mais US$ 5 bilhões em supercomputadores.
O avanço global da Inteligência Artificial (IA) acaba de encontrar o seu principal porto seguro na infraestrutura brasileira. A Ascenty, maior operadora de data centers da América Latina — controlada pela canadense Brookfield e pela norte-americana Digital Realty —, anunciou o aporte bilionário de US$ 1,2 bilhão (cerca de R$ 6,2 bilhões) para a construção e expansão de quatro novos empreendimentos focados exclusivamente em IA de alta densidade no interior de São Paulo.
O anúncio oficial, detalhado pelo CEO da companhia, Christopher Torto, consolida a Região Metropolitana de Campinas (RMC) como o maior hub de processamento de dados do continente. O plano de investimentos abrange duas cidades estratégicas: Sumaré e Vinhedo.
Os novos complexos operam no modelo single-tenant, o que significa que as estruturas físicas gigantescas foram totalmente reservadas e desenhadas para atender, de forma exclusiva, a um único cliente global de tecnologia (cuja identidade é mantida sob sigilo por cláusulas contratuais).
O Salto Tecnológico: Sumaré 3 e o Pioneirismo do Liquid Cooling
O principal destaque do anúncio é o projeto Sumaré 3. Segundo a companhia, este será o primeiro data center de grande porte no Brasil projetado desde a sua concepção original para operar cargas de trabalho voltadas puramente à Inteligência Artificial e deep learning.
A arquitetura exigida pela IA difere completamente dos ambientes de computação em nuvem tradicionais. Enquanto um rack de servidores convencional consome em média 8 quilowatts (kW) de energia, os novos gabinetes de IA operam com demandas que variam de 60 kW a até 1 megawatt (MW) por rack.
Para suportar essa densidade de calor extrema gerada pelos superprocessadores e unidades de processamento gráfico (GPUs), o Sumaré 3 abandonará as tradicionais correntes de ar-condicionado.
“Esse que estamos fazendo no Sumaré 3 é um projeto único, com 100% IA e 100% liquid cooling (refrigeração líquida). Não existe isso hoje no Brasil”, afirmou o CEO Chris Torto. O sistema utiliza fluidos especiais em circuito fechado para absorver e dissipar o calor diretamente nos componentes eletrônicos.
Ao todo, o complexo de Sumaré terá uma capacidade inicial expressiva de 90 MW, com potencial estrutural para dobrar de tamanho conforme a demanda do cliente avance.
Expansão em Vinhedo e o Ecossistema de US$ 6 Bilhões
Em paralelo à obra de Sumaré, o plano bilionário engloba o maior campus de data centers da América Latina, localizado em Vinhedo:
- Vinhedo 2 (Expansão): Passará por um processo de modernização e ampliação de sua infraestrutura elétrica, saltando de 50 MW para 80 MW de capacidade contratada.
- Vinhedo 3: Uma estrutura completamente nova de 80 MW, desenhada sob um formato híbrido de refrigeração (combinando ar e refrigeração líquida) para absorver o processamento de grandes modelos de linguagem (LLMs).
Ao final das obras, previstas para serem entregues de forma escalonada entre o final de 2026 e o terceiro trimestre de 2027, a cidade de Vinhedo abrigará um complexo de cinco data centers de grande porte da operadora.
O Efeito Multiplicador
Embora a Ascenty invista US$ 1,2 bilhão na infraestrutura base (terrenos, prédios blindados, subestações de energia e refrigeração), o impacto econômico real na região será muito maior. Estima-se que a gigante de tecnologia parceira invista outros US$ 5 bilhões para equipar os prédios com servidores de última geração, redes de fibra óptica e chips de IA. No total, o ecossistema movimentará mais de US$ 6 bilhões na economia paulista.
| Indicador Econômico do Projeto | Projeção Oficial |
| Investimento em Infraestrutura Física (Ascenty) | US$ 1,2 bilhão |
| Investimento Estimado em Tecnologia (Cliente) | US$ 5 bilhões |
| Empregos Gerados no Pico das Obras | ~ 600 postos diretos |
| Empregos Permanentes Pós-Inauguração | 120 vagas de alta especialização |
| Prazo Final de Entrega | Até o término de 2027 |
Logística e Energia: Os Desafios do Novo ‘Dourado’ Digital
A escolha do interior paulista reflete as vantagens competitivas que a região oferece em relação à capital. Marcos Siqueira, executivo da Ascenty, destacou que a região de Campinas oferece a combinação ideal de solo disponível para grandes construções, abundância de redes de fibra óptica, estabilidade contra desastres naturais e proximidade com universidades de ponta, fornecedoras de mão de obra qualificada.
No entanto, o crescimento exponencial do setor trouxe à tona o principal gargalo para a expansão tecnológica: a transmissão de energia.
Para viabilizar a operação em Sumaré, a operadora precisou assumir funções de infraestrutura pública, investindo US$ 50 milhões na construção de linhas de transmissão dedicadas de alta tensão entre as subestações de Santa Bárbara d’Oeste e Sumaré. “Dez anos atrás, nós nem pensávamos em investir em linhas de transmissão. Hoje em dia estamos fazendo. O gargalo atual não está na geração de energia limpa, mas na capacidade de transportá-la”, pontuou Torto.
Sustentabilidade Hídrica
Diante do receio público sobre o impacto ambiental de grandes centros de dados, os executivos reforçaram o compromisso sustentável das novas instalações. Como o sistema de refrigeração líquida opera em circuito totalmente fechado, o consumo de água é virtualmente nulo após a carga inicial. O consumo operacional do campus de Vinhedo, por exemplo, limita-se ao uso de áreas administrativas (copas e banheiros), equivalendo ao gasto anual de apenas nove residências familiares.
As obras civis das novas estruturas já foram iniciadas, sinalizando que a corrida pela liderança da infraestrutura de IA na América Latina passará, obrigatoriamente, pelas estradas e cidades do interior de São Paulo.
Fonte: Gemini, Correspondente Especial

