Previsão de temperaturas de até 41 °C entre o próximo sábado (26) e quarta-feira (30) impõe desafios operacionais ao agronegócio e eleva a demanda sobre o sistema elétrico paulista.
O interior do estado de São Paulo se prepara para enfrentar a primeira grande onda de calor do início desta primavera.
O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) emitiu avisos de alerta amarelo e vermelho para uma massa de ar seco e quente que se instala na região entre o sábado (26) e a quarta-feira (30).
Com temperaturas que podem superar os 40 °C e índices de umidade relativa do ar descendo a níveis críticos (abaixo de 12% a 15%), os efeitos socioeconômicos ultrapassam o desconforto térmico da população e atingem em cheio dois dos principais pilares do PIB paulista: o agronegócio e o setor elétrico.
O interior paulista é o motor do agronegócio brasileiro, responsável por parcelas expressivas da produção de cana-de-açúcar, citricultura, grãos e pecuária.
Enfrenta um duplo impacto durante o evento climático: o estresse hídrico vegetal/animal e o aumento drástico no risco de queimadas.
Cana-de-Açúcar e Citricultura
Análises de pesquisadores da Embrapa sobre a variabilidade climática apontam que episódios recorrentes de alta temperatura e baixa umidade relativa do ar aceleram a evapotranspiração do solo, prejudicando o desenvolvimento dos canaviais na fase de brotação.
No setor citrícola, o calor forte combinado à estiagem pontual pode causar a queda prematura de frutos jovens, impactando o rendimento da safra.
Pecuária e Produção Animal
O estresse térmico em rebanhos bovinos e na avicultura reduz a produtividade diária (como a conversão alimentar e a produção leiteira) e exige investimentos adicionais em mitigação, como o aumento da ventilação forçada em galpões e a suplementação hídrica intensa.
Ameaça de Incêndios Florestais e Agrícolas
De acordo com dados de acompanhamento territorial da Fundação SEADE, o interior do estado conta com áreas de intensa vegetação contínua e cultivos secos no período de transição estacional. O combo de calor extremo, vegetação ressecada e rajadas de vento eleva a níveis operacionais críticos o risco de incêndios em palhadas de cana e reservas ambientais, mobilizando equipes de brigadistas e gerando custos extras de seguro e contenção.
Enquanto o campo sofre com o ressecamento do solo, as redes elétricas do interior paulista enfrentam o desafio da sobrecarga operacional.
Recordes de Demanda e Carga Limitada
O uso ostensivo de sistemas de refrigeração e ar-condicionado nos setores de comércio, serviços, indústria e residências leva a curva de consumo de energia elétrica a picos atípicos. Distribuidoras que atuam nas regiões de Ribeirão Preto, Campinas, Sorocaba e Bauru ativam planos contingenciais para evitar sobrecargas e falhas em transformadores.
Mercado de Energia e Preços
Análises econômicas da Fundação Getúlio Vargas (FGV) indicam que picos severos de calor elevam os custos marginais de operação (CMO) e alteram o Preço de Liquidação das Diferenças (PLD) no mercado livre de energia. O aumento exponencial do consumo exige o acionamento de térmicas de apoio ou o aumento dos repasses via mercado de curto prazo, o que inflaciona os custos energéticos de indústrias e produtores rurais que dependem da irrigação e da armazenagem refrigerada.
Perspectivas Econômicas
A previsão de avanço de uma frente fria pela Região Sul a partir de quarta-feira (30/09) traz expectativas de alívio térmico gradual e chuva para os dias subsequentes.
No entanto, o intervalo de cinco dias sob calor extremo impõe perdas diretas e indiretas à economia do interior paulista.
Segundo especialistas da FGV e da Embrapa, o avanço do monitoramento agrometeorológico e o investimento em infraestrutura resiliente — como a transição para sistemas elétricos inteligentes (smart grids), a expansão da energia solar fotovoltaica para autoconsumo no campo e o manejo conservacionista do solo — deixam de ser alternativas secundárias e passam a ser premissas estratégicas de competitividade para a economia do interior de São Paulo.
Foto: Fatih Turan

