
Começo 2024 muito feliz pela realização do documentário “Professora Cecília, uma história de inclusão em Itapetininga “, de autoria do Beto Hungria.
O projeto contará a história da professora Cecília Pimentel Vasques Prestes Nogueira, minha mãe, uma pioneira no trabalho de educação e inclusão de crianças com necessidades especiais em Itapetininga. Uma história que começou na década de 1960 e cujos frutos melhoraram a vida de muita gente até os dias de hoje.
Ela foi uma pioneira no trabalho de educação e inclusão social de crianças surdas. Seu trabalho ficou conhecido em todo o Brasil por uma reportagem do Jornal Nacional em homenagem ao dia do professor, no ano de 1984. Na ocasião, a reportagem também mostrou uma aluna da minha mãe que foi a protagonista da peça de teatro “O Milagre de Annie Sullivan”, encenada em Itapetininga.
Reportagem do Jornal Nacional sobre o trabalho da professora Cecília

A peça “O Milagre de Annie Sullivan” aconteceu graças ao empenho e talento de outra professora , a Margha Bloes, uma grande amiga da minha mãe. Ela fez algo incrível: Itapetininga não tinha teatro… a peça foi encenada na Igreja das Estrelas, trazendo grande público de toda a região.
Minha mãe encontrou na arte um recurso para a promover seus alunos. Ela descobriu que eles compensavam a ausência de ouvir desenvolvendo mais a visão. Eram pessoas com uma sensibilidade extraordinária, conseguindo ter uma observação visual mais detalhada, com potencial fantástico para a pintura, por exemplo . Seu empenho em ensinar as técnicas da pintura para eles deu grandes frutos, chegando a ter quadros premiados na Bienal de Kanagawa – Exposição de Artes das Crianças do Mundo , no Japão.

Sua classe na Escola Estadual Fernando Prestes de Albuquerque foi a primeira a atender na região. A classe era para educação de crianças que não ouviam. No entanto, muitas famílias levavam até lá os filhos que consideravam surdos, mas eles apresentavam outros tipos de necessidades especiais, não eram surdos. Minha mãe ficava penalizada em não poder atender essas crianças, que voltavam pra casa e não tinham nenhuma perspectiva de futuro para suas vidas.
Ela tinha um amor muito grande no coração e muita compaixão pelo próximo. Precisava fazer algo por essas crianças. E fez. Foi para São Paulo, conheceu o trabalho da APAE e, juntamente com meu pai, conseguiu um grande apoio das pessoas da cidade para fundar a APAE de Itapetininga no ano de 1972. Atualmente a APAE de Itapetininga é uma entidade exemplar, que atende mais de 200 crianças com necessidades especiais.

E todo esse trabalho que ela realizou aconteceu numa época na qual nem se falava em INCLUSÃO.
O resgate da história da minha mãe chegou em boa hora: é uma oportunidade para olhar melhor e com empatia as pessoas que são diferentes, com seus talentos e habilidades. Nem melhores, nem piores, apenas pessoas diferentes da gente.


