Foto: Mario Amé
Após a explosão de demanda durante a pandemia, retração na procura por imóveis residenciais fora das metrópoles reflete o endurecimento das políticas corporativas de retorno aos escritórios e reconfigura o setor em São Paulo.
O movimento em direção ao interior de São Paulo, que impulsionou o mercado imobiliário regional entre 2020 e 2022, arrefeceu.
O avanço das políticas de retorno ao trabalho presencial e os modelos híbridos concentrados no ambiente corporativo provocaram uma reacomodação na dinâmica populacional e imobiliária do Estado. A busca por imóveis amplos e casas em condomínios fechados em cidades do interior paulista registra acomodação no volume de transações, enquanto a capital volta a centralizar o interesse dos compradores.
A virada de chave no modelo de trabalho
O avanço das exigências por presença física nas empresas é o principal catalisador dessa mudança de cenário. Levamento do DataZAP apontou que a proporção de trabalhadores atuando em regime exclusivamente presencial subiu de 52% em 2023 para cerca de 69%. Paralelamente, os arranjos 100% remotos caíram significativamente, consolidando-se como opção para apenas 12% do mercado de trabalho.
De acordo com sondagens da Fundação Getulio Vargas (FGV IBRE), as empresas vêm reestruturando suas rotinas operacionais para priorizar a convivência física, limitando a flexibilidade geográfica que antes permitia aos colaboradores residirem a mais de 100 km das sedes corporativas. Esse movimento alterou diretamente a tomada de decisão das famílias em relação ao local de moradia.
Redirecionamento da demanda imobiliária
Os dados de pesquisas do Secovi-SP (Sindicato da Habitação) indicam que, se por um lado o interior paulista viveu um período atípico de valorização e comercialização aquecida, a capital retomou a liderança do volume de vendas. A busca por imóveis no interior passa por uma fase de normalização.
As características do imóvel procurado também mudaram. Pesquisas do portal DataZAP revelam que, ao buscarem novas moradias, 75% dos compradores agora priorizam a proximidade com grandes vias de acesso e mobilidade urbana. Além disso, 47% buscam a proximidade de pontos de ônibus e 23% valorizam estações de trem ou metrô — critérios operacionais de rotina que superam o interesse por metragens amplas afastadas dos grandes centros.
Dinâmica demográfica regional e os dados do SEADE
O acompanhamento demográfico e econômico realizado pela Fundação SEADE mostra que a movimentação populacional observada no auge do isolamento social não se consolidou como uma migração definitiva em massa para todas as faixas produtivas. Os indicadores estaduais sinalizam que o fluxo pendular — o deslocamento diário por motivos de trabalho — voltou a crescer acentuadamente nas regiões metropolitanas.
Embora polos regionais como Campinas, Sorocaba e São José dos Campos mantenham forte dinamismo próprio atraído por suas infraestruturas locais, o movimento de profissionais da capital em busca de casas de campo com escritório dedicado perdeu a tração.
“O mercado não vive uma crise no interior, mas sim uma acomodação de expectativas. O comprador que migrou de forma impulsiva buscando espaço agora confronta o custo diário do deslocamento. A demanda voltou a ser pautada pela necessidade real de logística e localização”, apontam analistas do setor imobiliário.
Com a consolidação do presencial, o mercado imobiliário paulista encerra o ciclo de expansão acelerada impulsionado pelo home office e entra em uma fase de estabilização, reposicionando a capital como o eixo central do desenvolvimento residencial e comercial do Estado.

