15 de janeiro de 2026

Em Itapetininga 80% dos produtores rurais são pequenas e médias empresas familiares. A transição de pai para filho, tão comum nesse setor, traz consigo uma complexa mistura que vai das emoções e sentimentos até as decisões racionais.

O Portal das Cidades entrevistou Débora Borges, psicóloga familiar e psicanalista, e Bruna Tardelli de Morais, também psicóloga.

“Família envolve pessoas, emoções, sentimentos; a empresa é composta por pessoas, mas muito por números, por resultados, por metas”, explica Débora Borges.

Essa união de dois sistemas – o familiar e o empresarial – gera desafios que vão além das questões geracionais, alcançando o que ela chama de problemas transgeracionais, ou seja, questões passadas de gerações anteriores que se tornam parte da tradição da empresa.

Exemplos como as Lojas Riachuelo e o Grupo Votorantim mostram que empresas familiares podem prosperar, mas a chave está na profissionalização.

Débora destaca que um fundador pode ser um excelente idealizador, mas nem sempre um bom gestor, especialmente à medida que a empresa cresce.

A centralização excessiva de decisões, onde o “dinheiro é meu e aqui eu mando”, pode sufocar o crescimento e o desenvolvimento. “Às vezes, um filho caçula na família pode ser a pessoa que assine o documento final na empresa”, ilustra Débora, ressaltando a complexidade das hierarquias e a possibilidade de conflitos envolvendo privilégios ou equidade de salários. A solução, segundo ela, passa pela atualização constante, investindo em cursos e treinamentos tanto para membros da família quanto para funcionários externos, garantindo que a empresa se mantenha competitiva e inovadora.

Equilibrando Vida Pessoal e Profissional

Bruna Tardelli de Morais aborda a delicada fronteira entre a vida pessoal e o trabalho. “É uma situação que precisa saber colocar o limite em cada espaço”, afirma.

No ambiente familiar, a relação é mais calorosa e leve, enquanto no corporativo, a responsabilidade exige objetividade e liderança. A psicóloga destaca que os familiares precisam entender que, dentro da empresa, exercem um papel diferente.

Um ponto relevante é a nova geração que chega ao agronegócio. Muitos netos e filhos buscam formação superior para trazer novos conhecimentos e inovações para o negócio da família. No entanto, surge a preocupação dos proprietários: “Será que o meu legado vai continuar com esse familiar ou será que ele vai seguir a vida dele?”.

Bruna aponta que a sucessão planejada é necessária para identificar quem tem o perfil e o desejo de assumir o negócio, pois “isso exige querer, exige da pessoa esse olhar mais atento, mais profissional”.

A Importância da Sucessão Planejada

A sucessão é um dos maiores desafios. Débora Borges enfatiza que o ideal é que ela seja feita com planejamento, e não em momentos de crise ou emergência. Embora todos os filhos sejam herdeiros perante a lei, nem todos são sucessores.

A consultoria psicológica surge como um apoio fundamental nesse processo.

“Nosso trabalho é ajudar a organizar essa casa que está bagunçada”, diz Débora.

Isso inclui treinamentos, assessorias e até mesmo visitas às propriedades para entender o contexto e auxiliar na estruturação. A profissionalização da fazenda, que muitas vezes não é vista como uma empresa é um passo fundamental.

A colaboração entre as gerações – a experiência dos mais velhos e a tecnologia dos mais jovens – mediada por um consultor, pode ser a chave para uma sucessão harmoniosa. “A sucessão precisa acontecer num clima de paz, num clima de organização, com tempo, com mentoria, com antecedência de maneira tranquila, comunicativa e principalmente com planejamento”, conclui Débora.

Além do Agronegócio: Empresas Familiares Urbanas

A ascensão das empresas familiares não se restringe ao campo. O aumento dos custos operacionais no ambiente urbano tem levado muitas pessoas a recorrer a esse modelo.

Débora Borges ressalta que 90% das empresas no Brasil são familiares, motivadas pela busca por soluções e sobrevivência. Elas respondem por 65% do PIB brasileiro e 75% dos empregos gerados no país, segundo o IBGE.

No entanto, a sustentabilidade é um desafio. Apenas 30% das empresas familiares chegam à terceira geração, de acordo com o Banco Mundial.

Débora alerta para a importância de formalizar o negócio, separando as finanças da empresa das pessoais e estabelecendo contratos claros. “Não é porque uma empresa que está nascendo agora, desde o início, ela já não possa ter ordem e ter uma boa contabilidade”, argumenta.

A saúde mental dos envolvidos também é uma preocupação. O estresse e a pressão podem levar a sérios problemas, incluindo a depressão e, em casos extremos, o suicídio, especialmente entre proprietários rurais endividados. “É ótimo por um lado, só que tem que ser feito realmente com cautela”, adverte Débora. O apoio de consultorias personalizadas é vital para evitar que uma iniciativa promissora se transforme em um problema.

Bruna Tardelli de Morais reforça a importância da consultoria não apenas para a saúde da empresa, mas também para a saúde mental dos familiares. Ela cita dados alarmantes do Ministério do Trabalho, que registrou cerca de 470 mil afastamentos por problemas de saúde mental no ano passado. “Nós como consultoras nos preocupamos, queremos trazer novas possibilidades para conseguir conversar mais com as empresas e mostrar o quanto é importante o psicólogo estar engajado também com uma equipe de segurança do trabalho”, finaliza Bruna.

A longevidade e o sucesso das empresas familiares, sejam elas do agronegócio ou urbanas, dependem de um olhar atento para a gestão, a sucessão e, acima de tudo, o bem-estar das pessoas envolvidas.

Autor

Por Portal das Cidades

O Portal das Cidades é um site de entrevistas e notícias da região de Itapetininga, num novo formato interativo com as plataformas digitais.

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