A água, elemento vital para a vida no planeta e pilar da agricultura, está no centro das discussões globais e locais, especialmente na bacia do Alto Paranapanema.
Em um cenário de mudanças climáticas, que trazem extremos como secas e enchentes, a gestão dos recursos hídricos torna-se um desafio complexo e urgente.
Para debater o tema, o Portal das Cidades promoveu um debate com a participação de Bruna Soldera, diretora do Instituto Água Sustentável, do engenheiro ambiental Vinícius Boniolo, de Everton de Oliveira, PhD da Universidade de Waterloo (Canadá) e Emílio Prandi, do Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE) e especialista em recursos hídricos
O Panorama Hídrico: Desafios Mundiais e Locais
Bruna Soldera destacou a crescente ocorrência de estresse hídrico no Brasil, exemplificado pelas enchentes no Rio Grande do Sul e pela seca histórica na Amazônia. “A gente vive esse complexo relacionado à água e também às mudanças climáticas. Você sente a mudança climática pelo recurso hídrico”, afirmou Bruna. Ela ressaltou que, embora a bacia do Alto Paranapanema seja uma região produtora de água, tem sofrido impactos ao longo do tempo, com a diminuição dos reservatórios e o aumento do uso de água subterrânea.
Everton de Oliveira, conhecido como “Professor Água”, enfatizou a necessidade de traduzir o conhecimento científico para o público em geral. Ele explicou que o principal efeito das mudanças climáticas é na água, resultando em eventos extremos como inundações e escassez.
A bacia do Alto Paranapanema, sendo uma “produtora de água”, utiliza intensamente esse recurso, seja por meio de poços ou mananciais superficiais e subterrâneos.
A preocupação central é garantir a disponibilidade de água para as futuras gerações, evitando a desertificação, um processo lento, mas que pode ser observado em regiões como o Egito, que já foram florestadas.
Emílio Prandi complementou, pontuando que, mesmo para especialistas, o comportamento da água se tornou imprevisível. Ele destacou a importância de reunir diferentes perspectivas para encontrar soluções para os complexos problemas hídricos.
O Dilema da Agricultura e o Conceito de Água Virtual
A agricultura, força motriz da economia do Alto Paranapanema, com 14% do PIB agrícola do estado de São Paulo, enfrenta um paradoxo.
Vinícius Boniolo, ex-secretário de Meio Ambiente da Campina do Monte Alegre, ilustrou a situação com dados: em 1985, a bacia tinha três pivôs de irrigação e chovia 10% mais do que hoje; atualmente, são mais de 1.600 pivôs, com menos água disponível.
“A gente precisa pensar em planejamento territorial na bacia do Alto Paranapanema”, alertou.
A Água Embutida na Soja Exportada
Bruna Soldera explicou que somos um grande exportador de água, presente nos alimentos. Neste contexto, uma possibilidade é criar um “crédito de água”, similar ao crédito de carbono, para valorizar e gerenciar o uso desse recurso.
Everton de Oliveira aprofundou o conceito de “água virtual”, que representa a quantidade de água necessária para produzir um item. No entanto, ele ressaltou que nem toda a água utilizada na produção retorna ao ciclo hidrológico local. A extração de água subterrânea para irrigação, por exemplo, pode levar a uma parte considerável dessa água a evaporar ou escoar rapidamente para rios e oceanos, contribuindo para a desertificação ao longo do tempo. “Lentamente, com o passar dos séculos, nós estamos mandando água pros oceanos”, afirmou. A ciência busca quantificar esse impacto para que as empresas possam calcular o prejuízo no recurso hídrico e, assim, reverter as mudanças climáticas por meio de uma gestão mais eficiente da água.
Conflitos de Uso e Soluções em Gestão Hídrica
A bacia do Alto Paranapanema, com seus grandes lagos formados por hidrelétricas, vive um conflito de interesses entre setores. Emílio Prandi destacou que a agricultura, a geração de energia elétrica, o abastecimento municipal e o turismo competem pelo mesmo recurso.
A negociação desses usos múltiplos da água é um desafio que o Comitê da Bacia Hidrográfica do Paranapanema, conhecido como o “parlamento da água”, busca resolver. Este comitê reúne diversas entidades e os municípios da região para decidir sobre a melhor forma de utilizar a água.
Emílio informou que os três grandes reservatórios do Paranapanema (Jurumirim, Chavantes e Capivara) operam atualmente com 60% de sua capacidade, um nível razoável para o início do período seco. Ele enfatizou que a implementação de regras operativas para os reservatórios foi crucial para essa situação.
O cenário futuro, conforme estudos, aponta para um aumento de 2 a 8ºC na bacia, exigindo adaptação das culturas agrícolas. Vinícius Boniolo mencionou um estudo que prevê uma redução de até 40% nas chuvas em períodos chuvosos e secos, e uma diminuição significativa das vazões mínimas dos rios. “É muito importante a gente pensar do ponto de vista do planejamento territorial e gestão de bacias hidrográficas”, ressaltou.
Cobrança pelo Uso da Água e Serviços Ambientais
Diante dos desafios, surgem ferramentas de gestão, como a cobrança pelo uso da água e o pagamento por serviços ambientais.
Emílio Prandi explicou que a cobrança pelo uso da água, já adotada em todo o país, auxilia no controle e na diminuição do desperdício.
O valor arrecadado é revertido para iniciativas que promovem a permanência da água na bacia, combatendo o rápido escoamento. No Paranapanema, a cobrança para quem capta água dos rios estaduais deve ser implementada em um ou dois anos. A agricultura, que ainda não paga pelo uso da água, enfrenta uma resistência que, segundo Emílio, está sendo gradualmente superada.
Bruna Soldera reforçou a oportunidade para Itapetininga e microrregião, com a participação de pequenos agricultores e da agricultura familiar, de se beneficiarem do pagamento por serviços ambientais, incentivando práticas mais sustentáveis e regenerativas.
A água, mais do que um recurso, é um bem valioso que exige gestão colaborativa e inovadora para garantir a prosperidade dos municípios do Alto Paranapanema e do planeta.


