Historicamente reconhecido como o coração da produção canavieira no Brasil, o interior do estado de São Paulo atravessa uma importante transformação em sua matriz energética.
A expansão acelerada do etanol de milho, antes concentrada na região Centro-Oeste, consolida-se como um vetor de diversificação industrial e eficiência operacional no agronegócio paulista.
O crescimento da produção já está fortalecendo a economia do interior do estado de São Paulo e traz novas perspecitas para o setor energético.
Análises de consultorias do setor e publicações especializadas em economia e energia (como NovaCana, The AgriBiz e Notícias Agrícolas) apontam que a transição para unidades flex (que processam cana e milho) e a criação de usinas dedicadas visam garantir a operação contínua das plantas industriais ao longo dos doze meses do ano, superando os períodos de entressafra da cana-de-açúcar.
Os Polos de Produção no Interior de São Paulo
No mapa produtivo do estado de São Paulo, o milho ganha escala industrial estratégica em regiões produtoras tradicionais de grãos e cana:
-
Dois Córregos (Região Bauru/Jaú): Destaca-se no cenário estadual abrigando usinas dedicadas ao processamento do grão, a exemplo da usina Cereale, um dos polos pioneiros de diversificação regional.
-
Pradópolis, Barra Bonita e Sertãozinho: Tradicionais polos canavieiros do estado que vêm adotando o modelo flex para maximizar o uso da infraestrutura fabril e processar milho no período da seca, quando a colheita de cana é reduzida ou paralisada.
-
Médio Paranapanema e Sudoeste Paulista (regiões de Assis, Ourinhos e Itapeva/Itapetininga): A alta produtividade de milho safrinha e a conectividade logística com as principais rodovias e ferrovias atraem projetos de estocagem, processamento de ração e plantas agroindustriais voltadas aos biocombustíveis.
Estrutura Operacional e Coprodutos
Diferente do processamento da cana, a produção industrial a partir do milho possui um rendimento superior por tonelada processada e entrega um modelo de economia circular robusto:
-
Rendimento: Cada tonelada de milho gera cerca de 400 litros de etanol, frente aos aproximadamente 80 litros por tonelada de cana-de-açúcar.
-
Geração de DDG (Distillers Dried Grains): Durante a fermentação do amido, são extraídos os grãos secos de destilaria, coproduto de altíssimo valor nutricional para a pecuária de corte e leite, integrando diretamente a lavoura à pecuária extensiva e intensiva.
-
Co-produtos Energéticos: A extração do óleo de milho abre mercado para o setor de cosméticos e para a produção de biodiesel.
Perspectivas Futuras e o Cenário do Mercado Global
Dados da União Nacional do Etanol de Milho (Unem) e projeções de analistas do mercado de energia indicam que a participação do milho na produção nacional de etanol, que representava cerca de 8% em 2020, aproxima-se da marca de 30% a 40% nas projeções desta década.
No cenário internacional, o mercado global do etanol vive um momento de reconfiguração:
Descarbonização e Combustíveis do Futuro: O etanol de milho surge como insumo estratégico para a produção de SAF (Sustainable Aviation Fuel — combustível sustentável de aviação) e no setor marítimo, impulsionando negociações internacionais e balanços de exportação.
Segurança Energética Mundial: Diante da volatilidade dos preços do petróleo no mercado internacional, governos reforçam metas de mistura mandatória de biocombustíveis na gasolina, gerando um aumento substancial na demanda global.
Competitividade com os Estados Unidos: O Brasil se consolida ao lado dos norte-americanos como os maiores players globais na exportação do biocombustível de milho, com a vantagem competitiva brasileira assentada no modelo de integração lavoura-pecuária e no uso sustentável da biomassa para energia.
O interior paulista, com sua malha logística estruturada e robusta cadeia do agronegócio, posiciona-se não apenas como consumidor de biocombustíveis, mas como peça-chave no fornecimento de energia limpa para o mercado interno e externo.
Foto: marie françoise bastien

