A Inteligência Artificial (IA) já faz parte do nosso dia a dia, tornando-se fundamental em diversas áreas, incluindo a saúde. Em hospitais públicos e privados, a IA já aperfeiçoa processos, desde o diagnóstico por imagem até a gestão de prontuários. No entanto, o debate ganha contornos mais complexos e críticos quando o foco se volta para a saúde mental, especialmente na forma como a IA interage com as pessoas.
Inteligência Artificial e Saúde Mental foi o tema de um debate nos estúdios da TV Itapê, apresentado pelo jornalista Edmundo Prestes e pela professora universitária Débora Orcia, reunindo especialistas para discutir os limites e as responsabilidades da tecnologia em um campo tão sensível.
O avanço incontrolável e o receio
Segundo Marcelo Camargo, orientador do pólo EAD da Fatec de Itapetininga e especialista em tecnologia, “hoje a gente vive um momento muito radical, onde as coisas estão mudando rapidamente. Quem falar que é especialista hoje em dia, quem falar que é especialista está mentindo,” declarou, ressaltando que a sociedade ainda está aprendendo a lidar com a nova ferramenta.
Para ele, a IA é uma expansão da capacidade humana de “inteligir” (entender), e seu uso reflete a visão de mundo do usuário. “Se eu tenho uma visão de mundo negativa, essa expansão dessa minha inteligência através das máquinas, ela vai acabar sendo negativa também.”
Ele defende a noção de letramento digital para que as pessoas, especialmente os jovens, compreendam a IA como uma ferramenta e saibam utilizá-la de forma positiva, buscando o contraponto e não apenas a confirmação.
O Risco da Falsa Conexão e a Falta de Humanidade
Nicoli Abrão Fasanella, médica psiquiatra e professora universitária, trouxe o olhar clínico sobre o uso da IA na saúde mental. Ela observa que pacientes, em sua maioria jovens, buscam em IAs respostas para conflitos interpessoais e problemas emocionais, uma prática que considera um risco.
“Uma das coisas que a inteligência artificial não tem é justamente a humanidade e é essa escuta qualificada que faz diferença no entendimento do sofrimento mental,” afirmou a psiquiatra. Ela alerta para o perigo da falsa sensação de conexão criada pela IA, que, ao se alinhar ao estilo do usuário e reforçar suas falas, impede a análise crítica da circunstância emocional.
O Papel Insubstituível do Vínculo Humano
Para Cássia Matarazzo, psicóloga e suicidóloga atuante em projetos de saúde mental, a controvérsia do tema reside no impacto social da tecnologia. Ela concorda que o letramento digital é urgente, mas chegou “um pouquinho tarde”, uma vez que a tecnologia se tornou “mais orgânica” na vida dos jovens, intensificada pela pandemia.
A especialista destaca o risco do isolamento, mencionando o projeto “Falar É Bom”, que estimula rodas de conversa e o resgate da interação presencial. Cássia Matarazzo enfatiza que a IA busca o “like” – a confirmação – e isso atende a uma vontade humana de estar bem, mas negligencia o essencial. “O outro é o outro. Então, a gente tem essa diversidade de opinião e isso no final das contas é o que agrega para a nossa vida, o que faz a gente crescer.”
O vínculo é apontado por Cássia como o principal fator de proteção da saúde mental.
A troca de experiência em grupos de apoio, por exemplo, gera um “refrigério para a alma” que a IA jamais poderá substituir.
Alertas e Recomendações
Os especialistas concordam que a IA, no atual estágio, não deve ser usada para terapia ou aconselhamento íntimo. Marcelo Camargo ressaltou que, embora as plataformas digitais tenham recursos para identificar gatilhos de sofrimento mental, a responsabilidade final pelo uso é do ser humano.
A psiquiatra Nicoli aconselha a busca por profissionais qualificados e por interações sociais reais. Ela defendeu a necessidade de legislações para proteger mentes em formação, especialmente adolescentes, que não possuem maturidade para criar prompts que os protejam de conselhos potencialmente prejudiciais.
Neste contexto, ela reforçou que o uso de redes sociais por crianças e adolescentes sem supervisão é como entregar a chave de um carro a quem não sabe dirigir, alertando para sinais de alerta como isolamento, mudança de hábitos e queda no rendimento escolar. A
solução é o resgate do coletivo, da natureza e das interações presenciais.
O Protagonismo Humano
Os especialistas entraram em consenso sobre que a IA jamais substituirá o fator humano. Como bem resumido por Marcelo, a “inteligência artificial, ela responde o que a gente pede, mas ela não se importa com a resposta.” A máquina é um instrumento que pode ajudar, mas o vínculo, o afeto e a conversa com outro ser humano são as redes sociais verdadeiras e a base inabalável para o desenvolvimento da saúde mental. O protagonismo sempre será do ser humano.


