O interior do estado de São Paulo, consolidado como o maior produtor de etanol e de açúcar do Brasil, deu um passo histórico na corrida global pela descarbonização: a construção da primeira usina brasileira voltada exclusivamente à captura e ao armazenamento de dióxido de carbono (CO₂) gerado durante a fermentação e produção do etanol de cana-de-açúcar.
Com um investimento inicial estimado em R$ 30 milhões, o recém criado Centro de Tecnologias para Captura e Armazenamento de Carbono Biogênico (CTCCSBio) terá como missão principal liderar as pesquisas de viabilidade técnica, econômica, jurídica e geológica para tirar a usina do papel.
Aliança estratégica e base científica na Poli-USP
O projeto funcionará sob um robusto modelo de cooperação científica e industrial. Financiado pela FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo), o CTCCSBio está sediado na Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP).
A iniciativa une o conhecimento de ponta da academia às necessidades do mercado e do setor público, contando com a parceria direta da Petrobras e Grupo São Martinho, gigantes do setor de energia e sucroenergético, e da Secretaria de Estado do Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (Semil);
“A engenharia básica e a tecnologia de captura já estão disponíveis no mercado internacional. O nosso grande desafio científico agora é adaptá-las, de forma economicamente viável e segura, para a realidade física e de solo do estado de São Paulo”, destaca o professor Bruno Souza Carmo, do Departamento de Engenharia Mecânica da Poli-USP e diretor do centro.
Como funciona a tecnologia BECCS?
A futura planta paulista utilizará a tecnologia conhecida internacionalmente pela sigla BECCS (Bioenergy with Carbon Capture and Storage, ou Bioenergia com Captura e Armazenamento de Carbono).
Diferente da captura de carbono industrial tradicional, o carbono capturado no processo do etanol é classificado como biogênico.
Durante o crescimento da cana-de-açúcar, a planta remove naturalmente o gás carbônico da atmosfera por meio da fotossíntese. Ao queimar o bagaço ou fermentar o caldo para produzir o combustível, esse CO₂ é devolvido para o ar.
O sistema BECCS quebra esse ciclo: ele intercepta o gás no momento em que ele é gerado na usina e o injeta em formações geológicas profundas no subsolo, isolando-o permanentemente.
O impacto: o combustível “Carbono Negativo”
Hoje, o etanol de cana já é celebrado globalmente por ter processo de carbono muito mais limpo se comparado à gasolina. Mas o seu balanço total ao longo da cadeia de produção ainda é positivo.
Ao capturar o CO₂ e sepultá-lo sob a terra, o processo passa a retirar ativamente mais gases estufa da atmosfera do que emite ao longo do seu ciclo de vida.
Isso transforma o biocombustível em um produto de emissão líquida negativa, um marco cobiçado pelos mercados mais exigentes de transição energética global.
Os desafios rumo à escala industrial
Apesar do entusiasmo e do ineditismo, o comitê do CTCCSBio na Poli-USP trabalhará em uma abordagem multidisciplinar que vai além da engenharia.
O grupo reunirá geólogos, economistas, juristas e cientistas sociais para solucionar os seguintes gargalos:
- Mapeamento Geológico: Identificar e certificar os reservatórios subterrâneos mais adequados no subsolo paulista para receber o CO₂ injetado com total segurança socioambiental.
- Financiamento e Monetização: Como a captura exige alto investimento operacional, a equipe desenhará mecanismos para tornar a atividade lucrativa, estruturando modelos baseados no mercado de créditos de carbono, políticas públicas de incentivo e compensações ambientais.
A consolidação desse projeto piloto coloca o Brasil e o estado de São Paulo na vanguarda tecnológica da transição energética global, provando que o agronegócio e a sustentabilidade podem caminhar juntos na mitigação do aquecimento global.
Matéria feita com ajuda do Gemini

