3 de setembro de 2026

Maio também é o mês da Conscientização sobre a Saúde Mental Materna

Sária Nogueira, Psicóloga Perinatal

O mês de maio é o mês das mães, mas também foi internacionalmente reconhecido como o mês da saúde mental materna, um período dedicado à conscientização sobre as significativas alterações emocionais que acompanham a mulher desde a concepção até os primeiros anos de vida do bebê.

Rúbia Melo e Beatriz Siqueira, Psicólogas especializadas na área Perinatal

O programa CONTROVERSA abordou o assunto entrevistando Sária Nogueira , Beatriz Siqueira e Rúbia Melo, psicólogas especializadas na área perinatal.

O Mito do Instinto Materno e a Realidade da Ambivalência Emocional

A ideia de um instinto materno inato, que faria a mulher lidar com a maternidade de forma perfeita e sem dificuldades emocionais, é um mito perigoso.

A maternidade não anula a individualidade da mulher, com suas próprias questões e história de vida. Ao contrário, a chegada de um filho frequentemente desencadeia uma complexa gama de emoções, marcada pela ambivalência. Alegria, medo, frustração e insegurança se misturam, e é fundamental validar esses sentimentos, desconstruindo a expectativa de uma felicidade materna idealizada.

A Cobrança Social e a Construção da Identidade Materna

Culturalmente, a mulher é ensinada a acreditar que o instinto materno é natural e que ser mãe é uma consequência óbvia de sua condição biológica. Essa cobrança social ignora a história individual de cada mulher e a possibilidade de que ela não deseje ou não se sinta preparada para a maternidade. Ser mãe é uma construção cultural, social e familiar, e a pressão para se encaixar em um estereótipo pode gerar sofrimento e a sensação de ser uma “péssima mãe” caso os sentimentos não correspondam ao idealizado.

A Transformação do Papel da Mulher e os Desafios da Maternidade nos dias atuais

Historicamente, o papel da mulher era predominantemente associado à maternidade e aos cuidados com o lar. No entanto, a sociedade evoluiu, e muitas mulheres encontraram outras formas de realização pessoal e profissional. Hoje, é comum que a mulher seja mãe, trabalhadora e, em muitos casos, a principal provedora do lar. Essa multiplicidade de papéis, embora possa ser fonte de satisfação e independência, também acarreta uma sobrecarga significativa e a necessidade de conciliar diversas responsabilidades.

A dificuldade em solicitar ajuda e a autocobrança excessiva são desafios comuns enfrentados pelas mães. A sociedade, e muitas vezes a própria mulher, internalizam a ideia de que a mãe “deve dar conta de tudo”. Essa pressão pode levar a sentimentos de culpa, ansiedade, estresse e até mesmo à depressão pós-parto, condição que atinge um número significativo de mulheres no período gestacional e puerperal.

O Impacto da Saúde Mental Materna na Relação Mãe-Bebê

É fundamental compreender que a saúde mental da mãe e o bem-estar do bebê estão intrinsecamente ligados. Uma mãe que não está bem emocionalmente pode ter dificuldades em estabelecer uma conexão saudável com o filho, o que pode, a longo prazo, impactar o desenvolvimento infantil. Investir na saúde mental materna é, portanto, uma forma de prevenção e de cuidado com a saúde pública como um todo.

Tratamento e Acolhimento: Caminhos para uma Maternidade Mais Saudável

Felizmente, a sociedade tem evoluído e reconhecido a importância da saúde mental materna. A psicoterapia individual oferece um espaço seguro para que as mulheres possam expressar seus sentimentos, elaborar suas experiências e encontrar estratégias de enfrentamento. Além disso, o pré-natal psicológico surge como uma ferramenta valiosa de prevenção, oferecendo informações, desconstruindo mitos e preparando a mulher e o casal para as transformações da gestação, parto e pós-parto. Essa abordagem pode ser realizada individualmente ou em grupos de apoio.

É animador observar que alguns municípios têm buscado integrar o acompanhamento psicológico nas maternidades e nos serviços de saúde, reconhecendo a necessidade de oferecer um espaço de escuta e acolhimento para as mães.

Violência Obstétrica: Uma Realidade que Precisa Ser Combatida

A violência obstétrica, infelizmente, ainda é uma realidade para muitas mulheres. Ela se manifesta de diversas formas, desde procedimentos desnecessários e realizados sem o consentimento da mulher até falas depreciativas e a desconsideração de suas vontades e necessidades durante o trabalho de parto e o parto. É fundamental que as mulheres conheçam seus direitos, como o de ter um acompanhante de sua escolha durante todo o processo, e que saibam que existem leis que criminalizam a violência obstétrica. O plano de parto é uma ferramenta importante para expressar os desejos e as preferências da mulher em relação ao parto, embora nem sempre seja respeitado pelas equipes médicas.

O Apoio do Poder Público e a Necessidade de Ampliação do Acesso

Embora existam leis que abordam questões relacionadas à saúde da mulher e ao planejamento familiar, como a lei do acompanhante e a criminalização da violência obstétrica, ainda há um longo caminho a percorrer para garantir o acesso universal e qualificado ao acompanhamento psicológico durante a gestação e o puerpério. A ampliação da oferta desses serviços na rede pública, especialmente nas Unidades Básicas de Saúde (UBS), seria um passo fundamental para promover a saúde mental materna.

Amamentação: Apoio e Respeito às Escolhas da Mãe

A amamentação é inegavelmente benéfica para o bebê, mas nem todas as mulheres desejam ou conseguem amamentar exclusivamente. A pressão social e as campanhas que idealizam a amamentação podem gerar culpa e frustração em mães que enfrentam dificuldades ou fazem outras escolhas. É essencial oferecer apoio individualizado, com consultoria em amamentação, e respeitar as decisões da mãe, lembrando que o bem-estar emocional materno é igualmente importante para a saúde do bebê. A amamentação é uma via de mão dupla, que depende tanto da mãe quanto do bebê, e diversos fatores podem influenciar o sucesso desse processo.

Autores

  • Portal das Cidades - Edmundo Vasques Prestes Nogueira

    Edmundo Vasques Prestes Nogueira é jornalista e editor do Portal das Cidades. Formado na Faculdade de Comunicação Cásper Líbero, há mais de 35 anos trabalha nas áreas de redação e telejornalismo.

    Ver todos os posts
  • Portal das Cidades

    O Portal das Cidades é um site de entrevistas e notícias da região de Itapetininga, num novo formato interativo com as plataformas digitais.

    Ver todos os posts

Notícias relacionadas

Visão geral da privacidade

Este site usa cookies para que possamos oferecer a melhor experiência possível ao usuário. As informações sobre cookies são armazenadas no seu navegador e desempenham funções como reconhecê-lo quando você retornar ao nosso site e ajudar nossa equipe a entender quais seções do site você acha mais interessantes e úteis.

Cookies estritamente necessários

Os cookies estritamente necessários devem estar ativados o tempo todo, para que possamos salvar suas preferências nas configurações de cookies.