Todos nós, em algum momento, já nos sentimos presos no “piloto automático”, seguindo uma rotina monótona e repetitiva. Acordar, trabalhar, comer, dormir. Mas e se pudéssemos quebrar esse ciclo e, de fato, buscar a mudança que tanto desejamos? Segundo a estudiosa em neurociência e professora universitária Débora Orcia, a resposta não está em reviravoltas radicais, mas sim na criação de novos hábitos, passo a passo.
Débora explica que nosso cérebro, por ser um grande poupador de energia, prefere a repetição e a previsibilidade. É por isso que criamos hábitos, atalhos mentais que nos permitem executar tarefas sem muito esforço. A chave para a mudança, então, é desafiar essa tendência natural, mas de uma maneira inteligente e sustentável.
A Consistência Vence o Radicalismo
Débora destaca que tentar uma mudança drástica de uma vez só, como começar a treinar seis vezes por semana por duas horas, raramente funciona. O motivo? Nosso cérebro rejeita o que é difícil e exige muito esforço imediato. O segredo está em adotar pequenas mudanças com consistência.
“Alguém que quer incluir o exercício físico no dia a dia poderia começar a treinar três vezes por semana, por apenas 15 minutos. A pessoa vai aumentando sequencialmente” sugere. Essa abordagem gradual torna a mudança menos assustadora e mais propensa a se tornar um hábito duradouro.
Dificultando o Ruim e Facilitando o Bom
Para evitar hábitos negativos, a neurociência oferece uma solução simples: dificultá-los. O cérebro gosta de coisas fáceis. Se algo for difícil de fazer, ele simplesmente desiste. Débora usa um exemplo prático: se você tem o hábito de ficar no celular até tarde, deixando-o ao lado da cama, pode mudar a rotina colocando-o para carregar em outro cômodo, como a cozinha. Assim, para usá-lo, você precisará se levantar e se deslocar, criando um “atrito” que desestimula a ação.
Da mesma forma, hábitos positivos devem ser facilitados. Quer comer de forma mais saudável? Mantenha alimentos in natura e frutas visíveis e fáceis de pegar, enquanto deixa os ultraprocessados escondidos no fundo da despensa.
A Jornada Pessoal de Débora
Com uma trajetória acadêmica impressionante, que inclui graduações em Biomedicina e Nutrição, além de um doutorado em Física Biomolecular e uma especialização em Neurociência de Produtividade e Performance, Débora se tornou uma estudiosa em mudança de hábitos e performance humana.
Ela compartilha suas próprias experiências em suas redes sociais, inspirando seguidores a buscar uma vida mais saudável e com autonomia, especialmente em longo prazo. “Eu prezo muito por ter, por envelhecer de forma saudável, de chegar lá no futuro e ter autonomia”, revela.
Segundo ela, o primeiro passo para a mudança é o autoconhecimento. É preciso olhar para dentro, reconhecer o que se quer transformar e, a partir daí, idealizar a pessoa que se deseja ser no futuro. Essa visão clara do destino serve como um guia para as pequenas escolhas e ações diárias que, somadas, constroem uma nova realidade.
A história de Victor Hugo, que trancou suas roupas boas para evitar distrações sociais e focar na escrita de “O Corcunda de Notre-Dame”, é um dos exemplos que a especialista gosta de citar. A atitude radical do escritor foi uma forma de dificultar um hábito ruim e priorizar um objetivo maior. O resultado foi uma obra-prima que resiste ao tempo.
Em um mundo onde a busca por mudanças radicais e resultados imediatos é constante, a mensagem de Débora é um lembrete valioso: o verdadeiro progresso reside na consistência e na intencionalidade. Não se trata de uma única grande ação, mas da soma de pequenas escolhas diárias que, com o tempo, nos levam para a melhor versão de nós mesmos.
Veja a entrevista completa.


