A adolescência é um período de intensas transformações e, muitas vezes, de desafios tanto para os jovens quanto para as suas famílias. Para saber mais sobre essa fase importante da vida, entrevistamos a psicóloga e supervisora clínica Mariana Harume, que trouxe insights valiosos sobre os aspectos psicológicos envolvidos e a importância do apoio familiar.
A Complexidade da Transição da Infância para a Vida Adulta
Mariana Harume destaca que a adolescência é um período psicológico altamente individualizado, que não possui um início ou fim rígido. “Para algumas pessoas começa aos treze, para outras aos quinze, e está tudo bem”, explica. Essa fase é marcada por intensas mudanças biológicas e hormonais, que culminam na formação do córtex pré-frontal, responsável pelo controle inibitório e tomada de decisões, processo que pode se estender até os vinte e cinco anos.
A psicóloga descreve a entrada na adolescência como uma “queda do paraíso”, onde a liberdade lúdica da infância dá lugar a uma série de convocações e responsabilidades do mundo adulto. Essa transição pode gerar conflitos e a necessidade de lutos – luto pela infância, pelo corpo infantil e pela forma como eram tratados pelos pais. O resultado pode ser um adolescente mais retraído, que busca isolamento, o que muitas vezes é mal interpretado pelos pais como rejeição.
Antecipação de Responsabilidades
A sociedade atual, com suas exigências produtivas, tende a sobrecarregar os adolescentes com atividades e responsabilidades precoces.
Mariana Harume enfatiza que, embora as responsabilidades sejam importantes desde cedo, elas devem ser introduzidas gradualmente, de acordo com a capacidade da criança. “O excesso de atividades e a falta de ócio trazem um comprometimento”, alerta a psicóloga, comparando a infância e a adolescência ao “chão que a gente pisa a vida toda”.
A antecipação excessiva de responsabilidades pode levar à desilusão, fazendo com que o adolescente perca o brilho no olhar e a paixão pela vida. Segundo Mariana, o medo dos pais de que os filhos entrem em comportamentos de risco – como uso de drogas ou transtornos depressivos – os leva a preencher o tempo dos adolescentes, o que paradoxalmente pode gerar consequências negativas.
Comunicação e Respeito: Pilares da Relação Familiar na Adolescência
Um dos maiores desafios para os pais é a comunicação com seus filhos adolescentes. Mariana Harume salienta que, para lidar com as mudanças de humor e comportamentos explosivos (como bater portas), é crucial entender que o adolescente “mais sente do que pensa”, e suas ações nem sempre são uma afronta deliberada.
A especialista aconselha os pais a dialogarem, e não apenas a darem ordens. “Se eu dou só ordem e voz de comando com o adolescente, ele bloqueia e não me ouve”, afirma.
É fundamental buscar um canal de comunicação, validando os sentimentos do filho e abrindo espaço para que ele se expresse, mesmo que o pai ou a mãe não concordem com suas escolhas. Aproveitar pequenos momentos, como uma carona ou uma conversa durante uma refeição, pode fortalecer esses laços.
Desafios da Família Contemporânea: Mães Solo, Redes Sociais e Referências
A realidade das famílias mudou. Mães e pais solo enfrentam a sobrecarga de trabalho, e o tempo para o diálogo com os filhos é escasso.
Mariana Harume destaca que a qualidade do tempo e o afeto são curativos.
A construção da auto-estemas e da importância do indivíduo desde a infância são fundamentais para que o adolescente consiga dizer “não” a riscos futuros, como o uso de drogas e o alcoolismo.
As redes sociais e os jogos online são novos ingredientes que intensificam os desafios da adolescência. Embora tragam conhecimento e entretenimento, podem levar ao isolamento, à comparação e ao cyberbullying. Mariana Harume enfatiza a importância de os pais estarem atentos ao conteúdo que seus filhos consomem, orientando-os sobre a exposição e os perigos do mundo digital.
A mídia, com seus modelos de vida irrealistas, também contribui para a comparação e a possível depressão. A psicóloga ressalta que “uma vida simples, uma vida cultivada com sorriso dentro de casa, pode ser a melhor referência”.
Como Identificar Sinais de Depressão e Ansiedade em Adolescentes
É fundamental que os pais estejam atentos a mudanças significativas de comportamento. Embora as oscilações de humor sejam comuns na adolescência, sinais como isolamento extremo, choro frequente, perda de interesse em atividades antes prazerosas, e dificuldades em fazer amigos, podem indicar um quadro de depressão ou ansiedade. “Se você pega ele chorando, volta da escola cabisbaixo, não aceita convites, é a hora de conversar”, alerta a psicóloga.
Mariana Harume também destaca a importância dos pais se permitirem mostrar suas próprias vulnerabilidades, criando um ambiente de intimidade e verdade onde os filhos se sintam à vontade para falar sobre seus próprios sentimentos.
Além disso, a busca por ajuda profissional – com um psicólogo ou especialista – é crucial quando os pais se sentem incapazes de lidar com a situação.
Sexualidade: Quebrando Tabus e Construindo Diálogos
A sexualidade é um tema que ainda gera tabus nas famílias. Para Mariana Harume a conversa sobre o corpo humano e as partes íntimas deve começar desde a infância, de forma natural, para que a criança aprenda a se proteger. Na adolescência, as perguntas sobre sexualidade virão, e os pais precisam estar preparados para respondê-las com naturalidade e sem pudor.
A psicóloga aconselha os pais a responderem apenas às perguntas que o adolescente faz, evitando “palestras” e teorizações excessivas. “Pergunte: ‘O que você acha disso? Qual é a sua opinião sobre isso? ‘”, sugere Mariana, incentivando um diálogo onde o adolescente também possa expressar suas próprias ideias e curiosidades. A verdade e a clareza são essenciais para que o jovem não busque informações em lugares errados.
Criando Espaços de Diálogo em Meio à Rotina Acelerada
Diante da rotina agitada das famílias, Mariana Harume sugere aproveitar as “pequenas oportunidades” para se conectar com os filhos adolescentes, como levar e buscar na escola, ou permitir que os amigos venham para casa. Uma estratégia eficaz é entrar no universo deles: assistir o que eles assistem, seja um youtuber ou um programa, e usar esse conteúdo como gancho para conversas, demonstrando interesse e fortalecendo os laços familiares.


