17 de março de 2026

Em um mundo cada vez mais conectado, as redes sociais se tornaram uma parte importante da vida, especialmente para as novas gerações. No entanto, o debate sobre os impactos dessas plataformas na saúde mental de crianças e adolescentes tem ganhado destaque.

A Percepção dos Jovens

Luísa Leite, estudante de Direito e membro do grupo teatral “O X do Drama”, compartilhou sua experiência pessoal, admitindo que publicações nas redes sociais já afetaram sua autoestima. Ela ressalta o perigo da busca pela “perfeição e beleza” online, especialmente para meninas jovens, que podem ter suas vidas sociais impactadas.

Jaíne Silva e Giovanna Martins, alunas do ensino médio do Instituto Federal de São Paulo, campus Itapetininga, aprofundaram a discussão, destacando o papel do algoritmo. Jaíne explicou que, ao procurar por um corpo que consideram ideal, os jovens são cada vez mais expostos a essas imagens, internalizando um padrão irreal.

Ela citou o exemplo da rinoplastia, onde a busca por uma solução para um incômodo pode levar a uma exposição constante a “narizes perfeitos”, intensificando a insatisfação.

Giovanna Martins complementou, enfatizando que as redes sociais frequentemente distorcem questões de saúde mental, transformando-as em “motivos de piada” e reforçando grupos que disseminam ódio.

Ela também criticou o uso do humor para fazer piadas sobre aparência, racismo e corpo, o que acaba normalizando comportamentos prejudiciais. Ambas as estudantes observam que a viralização de conteúdos negativos amplifica esses padrões, fazendo com que as pessoas busquem replicá-los, especialmente entre meninos jovens contra meninas.

A médica psiquiatra e professora da PUC de São Paulo, Dra. Nicoli Abrão Fasanella, concorda com as observações das jovens. Ela afirma que as redes sociais, da forma como são consumidas hoje, são prejudiciais à saúde mental, principalmente de jovens, devido à constante comparação com “corpos que não são reais”, “beleza que não é atingível” e uma “riqueza e poder que também não são”.

Dra. Nicoli ressaltou que grupos podem se unir por motivos negativos, como o ódio, ganhando força e criando uma “falsa sensação de pertencimento”. Ela alertou para o potencial adoecedor do uso intenso, tempo de tela e frequência de uso das redes sociais, incluindo grupos de WhatsApp, dependendo das vulnerabilidades individuais.

Crimes de Ódio e a Banalização

Luísa Leite destacou o aumento de ataques de ódio, especialmente contra mulheres, motivados pela aparência e até mesmo por questões raciais. Ela citou ataques à atriz Taís Araújo por seu cabelo e por “ocupar lugares” que, segundo os agressores, não lhe cabiam. Luísa enfatizou que crimes de ódio estão sendo “banalizados e normalizados”, principalmente no X, antigoTwitter.

Jaíne Silva destacou uma normalização desses ataques nos últimos tempos e a influência da viralização na produção de conteúdo odioso.

Ela mencionou a “confusão” que isso gera nas mulheres sobre sua aparência e comportamento, muitas vezes se sentindo inadequadas por não se encaixarem nos padrões impostos. Jaíne compartilhou um relato pessoal de sua tia, que teve que modificar seu cabelo para conseguir um emprego, evidenciando como a aparência, mesmo diante de um currículo qualificado, ainda é um fator determinante e muitas vezes limitante.

Giovanna Martins adicionou que, embora o ódio e o racismo sempre tenham existido, as redes sociais os “camuflam”, permitindo que as pessoas disseminem o ódio com mais facilidade e se unam a grupos com ideologias semelhantes, impulsionando o crescimento de grupos que apoiam questões como anorexia e racismo. Ela alertou sobre o poder dos influenciadores digitais, que podem levar as pessoas a consumir produtos ou ideias sem sentido, dada a “influenciabilidade” da sociedade atual.

Dra. Nicoli reiterou que as mulheres são historicamente vítimas de violência de gênero em uma sociedade machista, onde a cobrança estética e comportamental é muito maior do que para os homens. Ela também apontou a falta de comprometimento de influenciadores e a facilidade de disfarce online, o que torna as populações vulneráveis ainda mais expostas à violência e agressões.

O Perigo dos Padrões Irreais e a Falta de Aceitação

Luísa Leite enfatizou que a busca pela aparência idealizada é uma realidade que impede pessoas de conseguir empregos ou serem aceitas por quem são. Ela destacou a pressão constante sobre as mulheres para serem bonitas, magras, inteligentes e com cabelo perfeito, além dos estereótipos que associam beleza à inteligência ou à capacidade de ter sucesso. Luísa lembrou que as vidas nas redes sociais são “editadas”, não refletindo a realidade imperfeita e diversa do mundo real.

Jaíne Silva complementou, observando que alguns influenciadores estão começando a mostrar suas vidas sem maquiagem e filtros, reconhecendo a cobrança para serem “robôs” perfeitos. Ela reforçou a ideia de que as redes sociais apresentam uma realidade “mascarada” e “filtrada”, levando à comparação e à insatisfação. Ela expressou preocupação com as novas gerações, que crescem expostas a esses padrões desde cedo, comparando não apenas a aparência, mas também a vida financeira e relacionamentos.

Giovanna Martins mencionou o fenômeno da “Sephora Kids”, onde crianças de 8 a 12 anos utilizam produtos de skincare para adultos, demonstrando o quão influenciadas elas estão pela internet. Ela compartilhou uma experiência pessoal de sua infância, quando sofria bullying por seu cabelo, o que a levou a alisá-lo diariamente para se encaixar em um padrão. Giovanna observou que, mesmo sem celular, já existia uma autocobrança, que agora é “muito maior” com a exposição constante a padrões irreais.

O Impacto Psicológico na Formação de Crianças e Adolescentes

Dra. Nicole Fasanella enfatizou que o uso de redes sociais antes dos 14 anos tem impactos “muito negativos” no cérebro em formação de crianças e adolescentes.

A constante comparação, a perda da infância (com meninas se arrumando como adultas), e a busca por um corpo ou cabelo “perfeito” geram um estresse significativo. Essa dificuldade de assimilar o que é real e o que não é pode levar a “sofrimento muito grande”, “tristeza”, “angústia” e “autoestima extremamente abalada”, culminando em transtornos mentais como depressão e ansiedade.

Além disso, a psiquiatra alertou para a dependência das redes sociais, onde o jovem não consegue se desconectar, necessitando de cada vez mais tempo de tela para sentir-se bem, e pode negligenciar outras atividades e interações sociais.

Estratégias para Melhorar a Situação

Como estratégias, Dra. Nicoli Fasanella apontou a prevenção, limitando o uso de redes sociais em crianças e adolescentes e incentivando brincadeiras no “mundo real”.

Para adolescentes mais velhos, é crucial limitar o tempo de uso, desativar notificações e identificar precocemente os sinais de sofrimento para buscar tratamento especializado. Ela ressaltou a importância do diálogo e da educação sobre o tema, e a necessidade de que pais e responsáveis atuem como “referências de pessoas adultas” para garantir a saúde mental dos jovens.

O Valor da Interação Humana

Luísa Leite, ao falar sobre sua experiência no teatro, observou que crianças chegam “travadas” e com “medo de conversar” devido ao tempo submerso em seus “mundinhos” online. Ela enfatizou a importância de “sair da tela” e interagir com outras pessoas para desenvolver a comunicação.

Para Jaíne Silva a proibição do uso de celular na escola tem melhorado a interação entre os alunos, e que essa medida deveria ser ampliada para conscientizar sobre a importância da interação social fora do ambiente escolar. Ela também compartilhou que utiliza aplicativos para controlar seu tempo de uso em redes sociais, reconhecendo a dificuldade de se desvincular devido ao algoritmo.

Giovanna Martins complementou que a proibição do celular na escola não é uma “lei chata”, mas uma forma de “conscientizar” sobre o tempo excessivo nas telas. Ela ressaltou que interagir com o mundo e com as pessoas é “terapêutico” e “desenvolve a pessoa”, enquanto a falta de estímulos sociais pode gerar uma “trava de interagir futuramente”.

Autor

Por Portal das Cidades

O Portal das Cidades é um site de entrevistas e notícias da região de Itapetininga, num novo formato interativo com as plataformas digitais.

Posts relacionados

Deixe uma resposta

Descubra mais sobre Portal das Cidades

Assine agora mesmo para continuar lendo e ter acesso ao arquivo completo.

Continue reading