Recentemente o prejuízo nas exportações brasileiras de frango, devido à gripe aviária no Rio Grande do Sul, mostrou a importância do controle de doenças pecuárias.
Para falar sobre o assunto, o Portal das Cidades entrevistou Nelson Correa de Lara, Médico Veterinário da Coordenadoria de Assistência Técnica Integral (CATI) e colaborador do Sindicato Rural de Itapetininga e da CAT, e Misslaine Martins, Técnica em Agropecuária e funcionária do Sindicato.
Para Nelson Correa de Lara, no caso da gripe aviária, era inevitável sua chegada ao Brasil, dada a extensão territorial do país. “Era uma coisa que era inevitável, o Brasil com a extensão territorial que ele tem com certeza a gente ia acabar recebendo essa doença no nosso território”, afirmou.
Ele ressalta que houve eficiência dos órgãos de fiscalização na rápida detecção e contenção da doença no Sul, o que minimizou os impactos.
Vacinação e Desafios
Atualmente, a vacina obrigatória em Itapetininga é a da brucelose, aplicada apenas em fêmeas bovinas e bubalinas, de três a oito meses, por um médico veterinário credenciado.
Misslaine Martins detalhou o apoio do Sindicato Rural nesse processo: “O sindicato a gente trabalha primeiramente com mutirão de vacinação. Tem um veterinário específico, o Dr. William Deláqua, e atualmente fazemos um mutirão de vacinação. Vamos aos produtores que precisam de vacinação, eles entram em contato com o sindicato”. Ela ressaltou a importância da declaração de rebanho para manter os dados atualizados, o que é necessário para a emissão do certificado de vacinação compulsória, exigido pelos laticínios para a entrega do leite.
Zoonoses: Brucelose e Tuberculose
Existem doenças transmitidas entre animais e humanos, destacando a brucelose e a tuberculose. Nelson explicou que o controle e erradicação dessas doenças são programas federais, não permitindo tratamento para animais infectados. “Hoje não é permitido você fazer tratamento num animal, principalmente bovino, para doenças de tuberculose e brucelose”, afirmou.
A detecção é feita por meio de exames: o sanguíneo para brucelose e a aplicação de um reagente subcutâneo para tuberculose. Se o animal possui anticorpos para essas doenças, é porque está infectado, já que não há vacinas que confiram imunidade duradoura. Nesses casos, o abate dos animais infectados é obrigatório, e a propriedade é monitorada pelo governo até que apresente dois exames negativos consecutivos.
O Médico Veterinário alertou sobre a falta de conscientização de alguns produtores que não exigem exames de tuberculose e brucelose ao comprar animais, resultando em surpresas desagradáveis no futuro.
“A pessoa quando fala em legislação pensa que é só para prejudicar o produtor. Não é, é para proteger toda uma cadeia produtiva”, pontuou.
Sobre os sintomas, a brucelose é uma doença reprodutiva que causa abortos em fêmeas bovinas, geralmente no quinto mês de gestação, além de retenção de placenta. A tuberculose pode não apresentar sintomas visíveis, com animais infectados parecendo saudáveis. Nelson citou casos de tuberculose pulmonar e intestinal, e até em cérebro de animais. Ele enfatizou que essas zoonoses, embora não causem morte rápida, podem deixar sequelas graves e serem transmitidas para humanos, inclusive de humanos para animais.
O Rebanho de Itapetininga e o Perfil do Produtor
Nelson tem longa experiência na região, e acompanhou a transformação do rebanho em Itapetininga. Ele recordou os “bons tempos” em que a cidade era uma bacia leiteira fantástica, com mão de obra de qualidade.
No entanto, problemas com laticínios e a flutuação do preço do leite levaram a um declínio da atividade, impulsionando o gado de corte e, mais recentemente, a produção de grãos.
A falta de mão de obra qualificada é um desafio significativo, e Nelson destacou a importância dos cursos oferecidos pelo SENAR, em parceria com o Sindicato Rural, para capacitar profissionais. Atualmente, o Sindicato e a CATI focam no apoio a pequenos produtores rurais de origem familiar, que são a maioria em Itapetininga.
Misslaine Martins ressaltou que a produção de leite hoje é “por amor”, devido aos baixos preços pagos aos produtores em comparação com o valor final no mercado. Muitos produtores têm migrado da pecuária leiteira para o gado de corte ou arrendado suas terras para o cultivo de soja, visando maior rentabilidade.
Transporte Animal e a Importância do Rastreamento
O transporte de animais é outro ponto fundamental, com rígidas normas e a necessidade de guias específicas. Nelson explicou que o Sindicato Rural auxilia os produtores nesse processo. “O transporte, ele é todo normatizado, e o sindicato rural ele faz esse trabalho”, disse.
Misslaine detalhou como funciona a emissão da GTA (Guia de Transporte Animal). Para a compra e venda de gado na região, é necessário ter uma nota fiscal (física ou eletrônica) e o GTA. “Se você, por exemplo, tiver alguma fêmea ali que não é vacinada de brucelose, é obrigatório vacinar entre três e oito meses, vai travar o seu sistema. Você não vai conseguir emitir o papel do GTA“, alertou.
Nelson reforçou a importância do sistema GEDAVE (Sistema Informatizado de Gestão de Defesa Animal e Vegetal) para facilitar esses processos, mas fez um alerta sobre o sistema GEDAVE, enfatizando a responsabilidade pela atualização dos dados e pelo uso do talão de notas fiscais do produtor, citando a ocorrência de casos que incorrem em problemas legais por negligência.
A complexidade da pecuária brasileira, com a vigilância sanitária rigorosa e o apoio a pequenos produtores, é fundamental para garantir a qualidade dos produtos de exportação.


