A entrada no mercado de trabalho tem sido cada vez mais desafiadora para jovens e adolescentes, especialmente em tempos de informalidade crescente, falta de perspectivas profissionais e instabilidade econômica.
Juliana Tábata, artesã e empreendedora, decidiu abandonar o trabalho convencional para criar seu próprio negócio de saboaria artesanal.
“Trabalhava em empresas com horários difíceis, salários baixos e nenhuma realização. Abri a Lavanda Aura em 2022. Foi aleatório, mas está dando certo. Não só pelo dinheiro, mas porque me realiza”, contou Juliana, que atualmente também estuda para o vestibular, com o sonho de cursar Ciências Biológicas e tornar-se botânica.
Kaio Brito e Leonardo Luz, jovens egressos do Instituto Federal de São Paulo – Campus Itapetininga, também falaram ao Portal das Cidades sobre suas vivências como estudantes, vestibulandos e freelancers. Kaio, com interesse na área de audiovisual, falou sobre as experiências com projetos educacionais e a dificuldade de inserção no mercado: “O LinkedIn parece uma ilusão. Os processos seletivos são longos e, muitas vezes, automatizados. Sobra o freelancer, mas é instável. Às vezes, você gasta mais do que ganha”.
Leonardo, da área de informática, reforçou essa insegurança: “Tenho amigos que prestam serviços como formatação de computadores, montagem de sites… é uma alternativa para quem quer estudar e trabalhar. Mas é instável”. Ele também refletiu sobre a pressão emocional: “A cobrança é grande. Família, amigos passando no vestibular, comparação… Tudo isso pesa na saúde mental”.
Para o arquiteto e urbanista Igor Chaves, que também atua no cursinho pré-vestibular Prof. Dirceu Campos, a realidade do município ainda é limitada por um discurso de vocação centrado no agronegócio, enquanto jovens como Juliana e Caio mostram outras vocações possíveis, como o empreendedorismo e o audiovisual.
“As universidades precisam reconhecer que ninguém com 18 anos está pronto para decidir a vida inteira. Felizmente, hoje há cursos interdisciplinares, que ajudam a ampliar essa escolha”, explicou Igor.
Sobre o mercado de trabalho, Igor foi direto: “Mesmo áreas como o audiovisual, que lidam com milhões em grandes produções, oferecem condições precárias para técnicos e profissionais. A glamorização esconde a exaustão e a baixa valorização. Precisamos questionar esse modelo e criar alternativas”.
A saúde mental, tema central do projeto de Kaio no IFSP, também surgiu como ponto de alerta.
Ele contou que trabalhou com oficinas em escolas públicas, debatendo temas como ansiedade e violência familiar. “Muitos adolescentes nunca tiveram espaço para falar sobre sentimentos. Quando a gente abre espaço, eles começam a se expressar”, contou. Sobre sua própria saúde mental, foi honesto: “Eu me cobro demais. Às vezes, sem motivo. O Enem é uma prova de resistência. A pressão é enorme”.
Juliana reforçou a importância de estudar, mas com realismo: “Conheço gente que se formou e ainda está desempregada. Eu ainda quero cursar uma faculdade, mas já percebi que não dá pra depender só disso. Empreender é difícil, sim. Mas, se é para me esgotar, que seja por algo meu”. Ela busca conciliar os estudos com o crescimento de sua saboaria artesanal, e acredita que o empreendedorismo é uma forma de valorização pessoal. “Mesmo sendo mais difícil, vale a pena porque é meu, é retorno pra mim”.
O jovem de hoje não quer apenas sobreviver – ele quer se realizar. E isso implica uma série de desafios, como acesso ao ensino superior, oportunidades reais no mercado, apoio psicológico e, principalmente, reconhecimento das múltiplas formas de construir uma trajetória profissional.
O recado de Juliana, com simplicidade e força, resumiu o espírito da conversa:
“Não pare de estudar, mas também não aceite qualquer coisa. Faça por você. Porque no fim, só você vai colher esse retorno.”
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